Um estranho no espelho

“Estou aqui, saboreio-me, sinto um gosto velho de sangue e água ferruginosa, meu gosto, eu sou meu próprio gosto, eu existo. Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede”.

Jean-Paul Sartre, em “A Idade da Razão”.

Ainda criança, gostava de me colocar frente ao espelho e encarar-me fixamente por alguns minutos. Punha-me a perguntar, muitas vezes em voz alta: “Quem é que está aí? Quem é que está preso aí dentro? Quem é você?”. Não demorava muito para eu começar a sentir algo como uma “projeção astral”, um “olhar de fora”. Eu ainda estava ali, mas era como se conversasse com outra pessoa.

Apesar de soar assustador (e por vezes era), no geral eu gostava de fazer essa “experiência”. Conforme fui crescendo, contudo, tornou-se cada vez mais difícil atingir esse estado de “super consciência”. Passei a depender de alguma quantidade de álcool para fazê-lo e, é claro, não era mais a mesma coisa. Nunca mais foi a mesma coisa.

É necessária uma concentração absurda, um desligamento, é preciso ignorar tudo ao redor, todos os “ruídos”. Deve-se fixar toda sua energia e pensamento no seu próprio rosto, de preferência nos olhos, e atentar-se para cada movimento, cada espasmo muscular.

Lentamente, você passa a sentir algo como um “estranhamento”. Aquela boca, aquelas orelhas, aquele nariz, aquele rosto ora tão comum e banal, que já é seu por tantos anos, começa a lhe parecer diferente: “o rosto do Thyago”. Não é mais seu. E então é que você está pronto, está “dentro”. O auge, o clímax chega quando você pergunta “quem é você?”. E pergunta sinceramente. Porque de fato não sabe. Porque talvez nunca saiba.

Já faz 2 anos que consegui entrar nesse “transe” pela última vez. E o fiz no lugar mais “inapropriado”, onde jamais imaginei que fosse conseguir qualquer tipo de isolamento mental. Era uma festa, que já ia animada pela madrugada, eu já havia até pulado na piscina. Molhado, com um colar havaiano no pescoço, fui ao banheiro pela enésima vez naquela noite. Mas não seria só mais um xixi.

Quando saí, uns 5 ou 10 minutos depois, meio pálido, meio atônito, me perguntaram se eu estava bem. Deixei que pensassem que tinha a ver com a bebida. Nunca contei a ninguém, ninguém mesmo. Por certo eu seria desacreditado, como talvez esteja sendo agora.

Só que chega um momento em que você vê que não está sozinho. E não falo só de Sartre. Já conversei com outras pessoas sobre esse assunto e entendi que não sou demente. Quer dizer, pelo menos não o único demente.

“Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede”. Às vezes viro o copo com voracidade. Noutras, me dá ânsia só de molhar os lábios.

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