A lista

Recebi de um grande amigo a proposta de listar tudo o que mais me incomoda em mim mesmo, tudo o que mais repudio na minha personalidade (meus defeitos, por assim dizer). Segundo ele, e eu acredito que esteja certo, é uma forma de enfrentar melhor meus demônios e encarar um por um. Pode parecer besteira, corrente de Facebook, mas trata-se de uma “técnica” realmente aplicada na psicologia.

A princípio, fiz a lista e guardei para mim. Depois, resolvi colocar aqui. Não há uma motivação exata para tê-lo feito, só achei que seria interessante compartilhar essa experiência e ver o que as pessoas pensam a respeito (se concordam, se discordam, se adicionariam mais mil tópicos, se se sentem impelidas a fazer o mesmo).

Bom, coloquei só cinco itens. Afinal, não queria que este texto ficasse gigante. Prepare seu estômago!

1. Ser perfeccionista demais. Não chega a ser um TOC, sei bem, mas incomoda absurdamente (a mim e aos outros). Tudo tem que estar sempre (sempre!) limpo, organizado, impecavelmente disposto da forma que deixei. Para você ter uma ideia, me incomoda o simples fato, por exemplo, de alguém limpar meu quarto. Por quê? Porque, invariavelmente, essa pessoa precisará tirar as coisas do lugar, e não as deixará milimetricamente onde achou. E olha que hoje estou melhor, acredite. Já fui muito mais neurótico. Mas ainda preciso evoluir muito. Muito mesmo.

2. Ser acomodado. Em tudo: no trabalho, no estudo, no relacionamento. Tenho uma tendência a me acostumar com as coisas, sejam elas boas ou ruins (e não fazer nada para mudar essas últimas). Não que eu seja desprovido de ambição, de sonhos, de desejos. Sou é preguiçoso demais para correr atrás deles (ou correr com a gana necessária).

3. Ser egocêntrico. Não achei palavra melhor para o famoso “as coisas têm que ser do meu jeito!”. Involuntariamente, estou sempre tentando impor meu modo de agir e pensar a todas as situações da minha vida (pessoal e profissional). Nem sempre as pessoas notam isso porque sou discreto, sei dosar minha insistência, sei até onde posso ir. E, por incrível que pareça, essa vontade de ter tudo ao meu gosto não é questão de ser mimado. É pior: é por ser prepotente. Próximo tópico.

4. Ser prepotente. E arrogante. Tenho sempre a impressão de que as pessoas que me cercam são idiotas. E não fazem nada direito. Estou o tempo todo querendo fazer as coisas no lugar delas – porque penso que poderia fazer melhor. De todos os itens, esse é o único cuja situação vem, na verdade, piorando. Quanto mais leio, quanto mais estudo, mais acredito estar um degrau acima dos demais. É um trabalho diário e sistemático evitar ser tomado por esse pedantismo. E sei que ele é o culpado de as pessoas se afastarem de mim (com razão).

5. Ser irascível. Fico nervoso com muita facilidade, e por motivos completamente banais, que não deveriam tomar nem um minuto da minha atenção. Tenho muita dificuldade em ser resiliente, tolerante. Tendo sempre a responder na mesma moeda, ainda que a minha razão esteja sempre lá martelando que não se apaga fogo com palha. Entretanto, dos cinco tópicos, esse é o que está mais perto de sair da lista. Tenho me tornado cada vez mais condescendente, cada vez mais apto a não devolver ataques e insultos no mesmo tom. Ainda não sou um Gandhi, mas chego lá!

Quando terminei de listar os “contras” acima, pensei logo em incluir alguns “prós” (pra dar aquela amenizada, sabe?). Mas desisti. Talvez, entre esses prós, entraria a modéstia: não gosto de falar bem de mim mesmo. Sempre soa como um marketing safado, cretino e mal feito. Me lembra entrevistas de emprego: “Quais são suas maiores qualidades?”. A vontade é responder: “Olha, moça, uma delas é não falar das minhas maiores qualidades”.

Não sei se ter meus desvios de caráter digitados vai me ajudar a dizimá-los. Não sei mesmo. Mas que dá uma sensação de coceira, de “tenho que fazer algo a respeito”, isso dá. Nunca tinha feito isso antes, nunca tinha me criticado por escrito. É bem diferente de abrir a boca, bancar o resignado e falar de seus próprios podres. Colocá-los no papel exige aceitação, exige humildade.

No fundo, meu desejo é óbvio: só espero poder refazer essa lista um dia e não ter muito o que escrever.

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5 comentários sobre “A lista

  1. 1. Pera lá, ter rituais de limpeza e organização não é perfeccionismo é praticidade – é isso, hahah 4. Ser prepotente te faz pior e mais babaca do que os babacas, esse é o que mais nos ilude, afaga nosso ego, porém é o que menos nos traz experiências e aprendizado, ou seja, no fundo somos mais burros do que espertos em relação aos demais…

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    • É que você não conhece o nível desse item 1 hahaha. É realmente problemático, beira mesmo o TOC (apesar de eu saber que ainda estou no nível da “mania”, que TOC é doença).

      E sobre o 4: concordo plenamente.

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  2. Uma das tarefas mais difíceis é falar de si próprio, ainda mais quando se trata de defeitos ou “demônios”, ficamos sem fala, sendo surpreendidos por um silêncio absoluto.
    Esse mesmo silêncio deveria existir quando criticamos o outro, sem nos autoanalisarmos. Na maioria das vezes, a crítica ao outro é algo insuportável em nós.

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    • Exatamente! Penso que todos deveríamos fazer uma lista dessa mentalmente antes de criticar alguém. Mas isso exige sensatez, serenidade, humildade. E quem é que se põe a refletir, quem é que se põe calmo na hora de atacar outra pessoa?

      Me parece que o ser humano é naturalmente cego quando se trata de enxergar as próprias imperfeições.

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