Breve diálogo

– Tenho visto tanto ódio e intolerância. Ando desesperançado.

– Ora, isso não acontece de 24 anos pra cá. Antes da escrita já era assim, e o será ainda quando os carros voarem pelo céu. Explica-me: por que te incomodas?

– Tudo que tenho é esta existência. Os crimes do passado não são meus, mas os de agora recaem sobre mim ainda que não seja eu a empunhar a arma. Se faço parte desta sociedade doente, sou tão enfermo quanto ela. Gostaria não só de me redimir, mas de facilitar a salvação dos que virão.

– Há! Além de humanista, és otimista! Compreendo tua preocupação e a endosso. Contudo, que ideia revolucionária há de surgir que nos faça mudar esta barbárie que se arrasta já por tantos milênios?

– A mudança já se faz presente. Somos menos atrozes do que outrora fomos. O que me corrói é a expectativa, esta nada otimista, de que temos ainda muitos séculos de selvageria à frente. Nossa evolução pode ser constante, mas é por demais lenta.

– E que vês como catalisador para que ela não se demore tanto, para que aperte o passo e evite que mais vidas sejam ceifadas? O amor? A compaixão?

– Em que pese eu acreditar no afeto entre os homens, minha aposta não é no amor. É no conhecimento.

– No conhecimento? Instruir é a chave para frear os banhos de sangue?

– Sim. Veja: não me considero um indivíduo amável, tampouco propenso a perdoar meus ofensores com facilidade. Tenho, entretanto, a consciência de que não lhes devo agredir, física ou verbalmente. Reconheço na sensatez e na justiça a saída para meus conflitos.

Não ousaria encostar a mão em meus inimigos. Tudo por amor? Não. Tudo porque há muito me debruço sobre a história humana para saber que a violência é venenosa e infinda quando usada como resposta a qualquer entrevero.

– Não precisamos, portanto, de amor. O que nos falta é tolerância e calma no agir. É isso o que me dizes?

– Jamais colocaria de lado um sentimento tão belo. Não me permito questionar sua eficácia na obtenção da paz. Aliás, não me permito questionar nada a seu respeito, tal é sua natureza tão misteriosa que nenhuma ciência é capaz de explicá-la.

Contudo, o amor é irmão do ódio, e tal como o seu parente vil, ele também cega. Por amor é que executaram mulheres e crianças nas Cruzadas. Por amor é que queimaram vivos homens visionários na Inquisição. E por amor é que hoje mutilam jovens em Gaza. Enchamos os homens de conhecimento, não de dogmas!

– Noto que te agrada mais a frieza das ciências do que a volatilidade dos sentimentos. Não temes que nos tornemos duros, incapazes de emoções sublimes?

– Não. Amar é e sempre será possível ao maior pensador, ao maior matemático, ao maior cientista. Não há um só homem que possa viver sem sentir o coração lhe pular no peito por algo ou alguém.

– Defendes, então, o equilíbrio.

– Defendo, meu caro, a vida. Defendo a única coisa que nos é de fato cara, que não se pode substituir. Estamos presos dentro destes invólucros de carne, nestes corpos finitos e frágeis; já somos por demais suscetíveis aos males naturais. Não me entra na cabeça que ainda tenhamos que temer nossos próprios irmãos de espécie, que tenhamos que nos atentar, todo segundo, para que não nos roubem a nossa existência. E pior: por motivações torpes.

– Gostaria que o mundo todo te pudesse ouvir. Deste uma aula em resposta a uma simples pergunta. Bravo!

– Agradeço, mas permita-me uma correção: não foi uma pergunta simples. Foi uma das mais complexas que já tive de responder. E ainda assim o fiz de forma breve e incompleta.

– Brinda comigo a este momento! Saúde, meu velho!

– Saúde! A todos nós, meu caro. A todos nós.

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6 comentários sobre “Breve diálogo

  1. Uma aula, concordo.

    (in)Felizmente, nascemos em uma época em que não nos conforma coisas como tipos de governo e dogmas.

    Mas lembro que somos animais, seres competitivos na essência, egoístas de sangue.
    Não acredito que conhecimento ou amor possam nos dar uma sociedade plena e perfeitamente equilibrada, isto é utópico.

    Só nos resta tentar deixar, ao menos o nosso Euverso, um mundo menos filho da Puta.

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    • Olha só Dawkins criando mais um padawan!

      É bem por aí. Creio que a paz, em sua plenitude, é utópica mesmo. Mas quero acreditar em uma sociedade mais civilizada, cada vez menos pautada pela brutalidade. É isso que temos de buscar.

      No mais, muito obrigado pelo comentário! É uma honra tê-lo aqui!

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  2. Belas reflexões.
    Precisamos de humildade, em relação ao outro e a natureza como lembra Carl Sagan (estou lendo-o e comungando de suas reflexões). Mas acho que ainda há muitas coisas nas entrelinhas, que podem ser discutidas em outras “aulas”.

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  3. Ótimo texto! Vemos diariamente isso e cada vez mais em escala insdutrial…. Palestina – Israel, Russia – Ucrânia e tantos outros que não nos chega ao conhecimento. Faço votos de que mudemos enquanto há tempo!

    “Já somos por demais suscetíveis aos males naturais. Não me entra na cabeça que ainda tenhamos que temer nossos próprios irmãos de espécie, que tenhamos que nos atentar, todo segundo, para que não nos roubem a nossa existência. E pior: por motivações torpes”.

    Abraços!

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    • Muito obrigado, irmão!

      Você tem razão: há tantas maldades em andamento neste EXATO momento e nunca tomaremos ciência de metade delas. E, mesmo quando ficamos sabendo, me parece que estamos mais e mais “anestesiados”. Sentimos cada vez menos, somos cada vez menos capazes de nos colocar no lugar do próximo (ainda mais quando esse “próximo” está a milhares de quilômetros).

      E reforço seus votos! Otimista ou não, gostaria de viver para ver uma mudança significativa, um “salto” nessa busca pela união dos povos.

      Abraço!

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