Feijoada no Centro

Por Francisco Bezerra

Paro para comer um troço num restaurante na esquina da rua do Comércio com a São Bento. Feijoada é o do dia. Estranho, por ser quinta-feira. A promessa da cumbuca borbulhante trazida à mesa não se cumpre, é meia-boca. Vou engolindo. Parece feita com pertences do porco, de um ornitorrinco e do cozinheiro que deixou cair a carteira no caldeirão. Se achar uma medalha de Nossa Senhora de Aparecida entre um paio e uma costelinha, não será surpresa.

Do outro lado, um cara toca sax, melancolicamente. Uns sambas antigos. Toca mais burocraticamente do que melancolicamente. Engravatados, mulheres de tailleur preto e populares carregando embrulhos o ignoram. Nem velhos e crianças o olham, nem dão moedas.

Estaciona um caminhão de som do Sindicato dos Bancários, liga o som, um pagodão. O cara do sax desiste, superado pelo volume dos sindicalistas. Abre o estojo do sax, guarda o instrumento. Passa um moleque correndo de uns PMs, derruba tudo no chão. O cara do sax chora escondendo o rosto e eu volto pra feijoada.

Para ver mais textos de outras pessoas que colaboraram com este blog, use a tag “contribuição”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s