Ontem

Ao meu lado, a mulher mais bela. À minha frente, o whisky mais refinado. Estou no melhor bar da cidade. A noite, como prometia, foi impagável (exceto pela conta astronômica, claro).

No dia seguinte, em meio a aspirinas, garrafas d’água e certa confusão mental, acordo sozinho. Por um momento penso se não foi tudo um sonho. Não, não foi. A cabeça latejante não me engana. A noite de ontem existiu, foi uma das melhores da minha vida, mas, hoje, ela e sua protagonista do vestido preto são só lembranças.

Tento me lembrar melhor daquele rosto, ou mesmo contar quantas doses de Jameson tomei. Nada é exato, o que ficou foram vultos, flashes, luzes, música, fumaça. Tudo tão febril e volátil, tão intenso e efêmero! Ontem eu tinha tudo, hoje não me resta nada.

Quem foi que disse, afinal, que ser solteiro é melhor que namorar? Quem inventou tal mentira? Estou cansado de vaguear por tantos corações e ter tantas mulheres vagueando pelo meu. Não me entenda mal, não é que eu não goste dessas noites delirantes. É que prefiro uma manta sólida a uma colcha de retalhos.

Cada mulher deixa em mim um gosto, um cheiro, o som da sua voz. E tudo isso se mistura, se une em memórias meio apagadas e distorcidas. No fim, tenho nomes e rostos, mas não tenho sentimentos.

Copos vazios e bitucas de cigarro, sua mão me puxando, seu cabelo esvoaçando à minha frente enquanto andávamos pela rua, seu riso frenético e descontrolado. Isso, minha querida, foi tudo que você me deixou ontem. Queria poder saber o que te deixei.

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