O de sempre

Há algo de mágico em pedir “o de sempre”. Em chegar ao restaurante e ser reconhecido de pronto e cumprimentado. Em, sem mesmo esperar o cardápio, trocar um olhar de cumplicidade com o garçom e dizer: “O de sempre”.

Não é de hoje que sou adepto da monogamia gastronômica, mas só tomei real ciência dessa minha “fidelidade” quando comecei a almoçar fora, seja nos tempos de colégio ou em virtude do primeiro emprego (e dos próximos que se seguiram). Passava meses indo ao mesmo restaurante. Só trocava se enjoava da comida.

Desde adolescente, portanto, já fui me acostumando com um tratamento mais afetuoso por parte dos garçons. Era só eu pisar no pequeno e abafado boteco que o rapaz, apenas um pouco mais velho que eu, já disparava: “Fala aí, meu garoto! Saindo dois ‘x-maiona’ e uma tubaína!” (por “x-maiona”, leia-se “x-maionese”). Eu não tinha que pedir. Só abria a boca pra responder: “Opa! Fala, Breno! Valeu!”.

Com um vale-refeição, passei a investir numa alimentação um pouco mais decente. Quando cheguei ao meu atual emprego, já me foquei no restaurante que ficava exatamente ao lado do prédio. Comi lá todos os dias até ele ser vendido e fechado para uma reforma que levou meses. Nesse ínterim, “me mudei” para outro estabelecimento, que ficava um pouco mais longe, e era um tanto mais caro. Também me sentei lá diariamente até que o espaço fosse comprado por uma construtora, que agora já ergue um prédio cinza e sem graça onde antes eu falava com o seu Jair sobre a vida, seus dois moleques (um da minha idade), seu sonho de abrir o próprio restaurante.

Segui peregrinando, firmando relacionamentos duradouros que só eram interrompidos por motivos de força maior. Nunca busquei vantagens com meu “comportamento”, mas é fato que eu as recebia (e ainda recebo). Sou tratado quase como um “cliente VIP”, mas sem nada pagar por isso. Todos sabem meu nome, do garçom à menina do caixa, e se o primeiro me dá a melhor mesa e me serve porções extras de fritas, a segunda me dá chicletes todos os dias. E mais: sabe que eu gosto dos de maçã verde!

A verdade é: fico sempre muito grato quando sou servido. Não importa se estou pagando por isso. Deixo um “obrigado” para cada gesto, quando me trazem os talheres, a bebida, o prato. Mesmo quando me levanto e vou para o caixa, aceno para o garçom e o agradeço. É parte da minha criação. Sinto-me quase constrangido (não encontro melhor palavra) quando me servem. Acho que nunca poderei ser rico. Fico agoniado quando chego a um hotel e me tomam a mala das mãos, quando abrem a porta para mim, quando, enfim, fazem coisas que parecem me colocar “acima” dessas pessoas.

No fim, o que mais me satisfaz são as amizades que construo, ainda que breves. Na correria da rotina, tenho uma hora de paz. Uma hora para respirar. E são nesses 60 minutos que teço sorrisos. Já trato as pessoas como número no trabalho. Não quero isso fora dele. Não quero que me joguem o prato em cima da mesa em ritmo fordista. Não quero dar um “boa tarde” frio e vomitar um pedido. Quero palavras que fujam do roteiro. Quero humanos. Quero ser humano. Quero o de sempre.

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