A locadora

É meio estranho ter realmente idade para bancar o saudosista. Quando adolescente, eu insistia em dizer: “No meu tempo…”. Ora, quanta petulância para alguém que nem sabia o que era um barbeador! Pois agora eu posso usar essa expressão. E não sei se isso é exatamente bom.

Pois bem. Outro dia passei em frente a uma antiga locadora de fitas da qual eu era cliente assíduo. Imagino que a geração Z não faça muita ideia do que seja uma locadora. Aliás, ela já nasceu na derrocada da Blockbuster, que de alguma forma está se segurando e ainda não faliu.

Fiz questão de encostar o carro e descer. Caminhei até o portão daquele que já foi meu antro de contentamento e fiquei olhando o imóvel cinzento e fechado. Acendi um cigarro. Da mesma marca, aliás, dos que eu comprava para minha irmã na padaria ao lado. E lá se vão 16 anos. É tempo…

A saudade me invadiu (com certa violência até) e eu revi aqueles dias em que tudo era mais fácil, e o mundo parecia ser pequeno. As crianças têm um dom que se perde com a idade – e jamais se recupera: os olhos da simplicidade. A infância é nosso único e verdadeiro carpe diem em toda a vida. O momento é tudo (e o todo).

Mas a nostalgia jamais aparece desacompanhada. Sempre traz a tiracolo a sensação de finitude, o entendimento de que os anos correm ligeiros. A nostalgia invoca uma certeza: a de que é preciso viver intensamente para que possamos senti-la novamente no futuro. Quero ter saudade dos meus 24 como tenho dos meus oito.

Ser adulto é isto: é não conseguir ter um sentimento sublime sem que ele puxe outro, e outro, e mais outro. É não ter mais um momento de plena alegria sem que um problema lhe estupre os pensamentos, ou mesmo uma reflexão existencial que insiste em não esperar para ser chamada. Ser adulto é extenuante. É mentalmente extenuante.

Tudo isso se passou nos 10 minutos do cigarro. Antes, aos 8, não existiam 10 minutos. O tempo era contado de outra forma. O dia era dividido em porções: agora é hora dos bonecos, depois do videogame, depois do desenho. Sinto falta de não ter relógios.

Um último olhar para o portão preto. Entrei no carro e fui embora. Afinal, tinha 10 minutos para estar no trabalho.

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