Abominável Mundo Novo

A literatura ficcional costuma nos levar a uma esfera distante, imaginária, da qual não nos imaginamos integrantes, afinal, são sempre “nossos netos” os escolhidos para participar desse futuro (nem sempre) promissor. Na maioria dos casos, a ficção científica, no cinema ou na livraria, é exagerada e caricaturada pela excessiva tecnologia que realiza basicamente as mesmas tarefas já conhecidas, apresentando apenas mais sofisticação estética. Entretanto, com o perdão do lugar-comum, toda regra tem sua exceção.

Em seu best-seller escrito na década de 1930, o escritor inglês Aldous Huxley confirmou sua predileção e talento pela ficção científica – e política – com “Admirável Mundo Novo“. Trata-se de uma previsão do que seria um futuro longínquo da humanidade, uma profecia fantástica de um mundo de manipulação do pensamento e do comportamento e de produção de bebês em tubos-de-ensaio. Infelizmente, o que Huxley, há mais de 70 anos, achava ser improvável e muito distante da realidade agora não parece assim tão impossível.

Marcada com primazia pela sátira do autor aos avanços tecnológicos e científicos, a narrativa nos leva a uma sociedade completamente mecanizada, em que os humanos são produzidos em laboratório – inclusive em hordas de milhares de gêmeos idênticos – e “treinados” desde o nascimento a não ter emoções e sentimentos. São divididos em castas sociais, as quais não se misturam e remetem a uma hierarquia pré-definida, ou seja, os bebês nascem, crescem e morrem sem perspectiva – nem vontade ou conhecimento – de mudar sua situação.

Essa “utopia” imaginada por Huxley seria, portanto, uma ameaça real para nós? Creio que não, apesar de se mostrar plausível e perfeitamente compreensível do ponto de vista da racionalização e mecanização que atualmente nos “atingem”. No prefácio de sua obra, o autor diz, a respeito da sua previsão e da sociedade fictícia do livro: “… eu a projetei para daqui seiscentos anos. Hoje parece perfeitamente possível que o horror esteja entre nós dentro de um único século”.

Em contraposição a essa temeridade e abominação de um futuro em que nós seríamos reproduzidos e criados como robôs, vivendo à mercê de um sistema baseado em um grande e proposital apartheid, com incentivo ao consumo inesgotável de manufaturados e trabalho ininterrupto, temos a perspectiva de uma vida sem sofrimento. Não existiria mais dor pela perda de um ente querido, nada mais de doenças incuráveis e crianças nascendo com deficiências físicas e mentais: seríamos perfeitamente saudáveis, belos e felizes.

Seria inviável unir o útil ao agradável? Desconhecer as enfermidades, a fome, a pobreza, a violência e, ao mesmo tempo, não ser submisso a um totalitarismo inescrupuloso que abomina o ócio e o pensamento, não perder os vínculos afetivos com a família e os amigos, não se tornar, enfim, um ser qualquer, que não humano? Essa é uma questão que agrada tanto aos otimistas quanto aos pessimistas, pois ambos os grupos teriam muito que falar a respeito. O que se sabe, contudo, é que, a curto prazo, não teremos nem uma coisa nem outra: tanto a perfeição proposta por mim quanto o horror totalitário imaginado por Huxley.

Por fim, novamente ressalto que a proposta do autor se faz mais visível a cada dia, por mais que tenhamos a certeza de que não estaremos aqui para vê-la concretizada. Huxley confirma isso quando diz que no livro “essa padronização do produto humano foi levada a extremos fantásticos, embora não, talvez, impossíveis”. Sintomas comuns e aparentemente iniciais dessa revolução apresentada no livro se encontram nas grandes metrópoles: o estresse diário, a falta de tempo para a família, a mecanização do trabalho, a evolução da medicina. Tudo isso, entre outros fatores, já é realidade.

Escrito em 2008. Para ver mais textos produzidos antes da criação deste blog, use a tag “arquivo”.

Anúncios

2 comentários sobre “Abominável Mundo Novo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s