Tempo de ódio

Não que fosse diferente no passado, mas me parece nítido que a internet escancarou o chorume, jogou luz sobre os bueiros, de onde os ratos saem guinchando, ensandecidos por morder quem se coloque à sua frente.

A primeira reação, o ímpeto que me toma é o de pisar nesses roedores, chutá-los para longe, tratá-los com a baixeza que (supostamente) merecem. Encho-me de ódio, tal como eles, e me preparo para o (contra-) ataque. E só então é que me apercebo: se reagir às suas provocações no mesmo tom, passarei a integrar a ninhada.

Meu argumento soa arrogante, presunçoso. Sei disso. Mas venha cá: há como compactuar com discursos tão virulentos? Racistas, classicistas, xenófobos? Chegamos, assim, ao paradoxo: julgo inferiores pessoas que julgam outras inferiores. Pois é.

Pensei, a princípio, em falar de política. Usar de algum didatismo para “justificar” meu voto, dar bons motivos para quebrar à esquerda, para se avermelhar. Esse era o plano. Mas demorei demais. Quando tomei a caneta para escrever qualquer coisa, todo o debate já tinha sido envenenado pelo ódio. Pelo mais puro e simples ódio.

Ódio à presidente, ao partido, aos seus eleitores. Ódio ao que se supõe que sejam eleitores do PT. É pobre? É nordestino? É escória. Simples assim. Quando a conversa saiu do campo das ideias para entrar no do neonazismo, me vi mais que indignado, mais que atônito: me vi impotente, desesperançado. Foi quando me deu, afinal, o estalo: temos de percorrer ainda um longo e tortuoso caminho antes de ousar falar de política.

Quando a corrida presidencial começou, antes de toda essa avalanche de estrume, senti até certo contentamento ao ver muita gente “engajada”. Está claro que grande parte dos comentários era rasa e exibia uma ignorância latente por parte dos “cientistas políticos de Facebook”, mas já era alguma coisa. Melhor que nada, que traço, que silêncio.

Pouco a pouco, porém, a crítica deixou de ser a um projeto de governo e passou a ser ao povo atendido por ele. A existência do “bolsa-esmola”, do “assistencialismo” deixou as costas da “presidanta” e tornou-se culpa dos sofridos, dos desafortunados. Ou melhor, desculpem-me: dos vagabundos, dos burros. E é aí que a coisa toda degringolou. Sabe aquela velha briga de crianças? “Só xinga a mãe porque não tem argumento!”. É por aí. Só que agora com (pseudo-) adultos.

Quando a vitória (democrática, vale lembrar) de Dilma foi anunciada… ah, meus amigos, aí é que se abriram todas as latrinas mesmo! Atordoado, tentei entender os disparates que se acumulavam (e seguem se amontoando) na minha timeline. Não sei exatamente como classificar os comentários que li, mas creio que uma palavra possa resumir o que penso de (quase) todos: empatia. Na verdade, a falta dela.

Excetuando-se absurdos como “impeachment já!”, que demonstram uma inépcia veemente (além de uma ironia, visto que vêm das mesmas pessoas que chamam o Brasil de “ditadura”), as demais falas preconceituosas são fruto de nada além de uma ausência completa de empatia. É não ter a mínima capacidade (tampouco vontade) de se colocar no lugar do outro. Junte-se a isso um complexo de megalomania e… pronto! Temos um exército de pequenos Fürhers raivosos se debatendo e esperneando, bradando impropérios e espalhando sua estupidez por onde passa.

Como dialogar com quem está cego de ódio, com quem repete, como que disco riscado, frases de efeito e chavões lidos em alguma revista semanal falaciosa? Bom, esmurrar de volta não adianta, já é sabido. Resta a condescendência. Resta não se render à selvageria – é o que eles querem que você faça, afinal. De que vale ter raiva de quem tem raiva? Alguém precisa quebrar a cadeia.

Deixo para outro momento, portanto, uma análise mais detida dos porquês votei 13. Há algo mais urgente em curso. Há algo que precisamos combater como sociedade. E quando digo “como sociedade”, é porque o ódio está em todos os estratos sociais, do mais alto ao mais baixo. Está na esquerda e na direita. Está no centro. Está nos brancos e nulos. Está onde menos se espera. Quantas vezes não fui surpreendido nesses últimos dias? Parentes, amigos, gente que eu achava ser mais sensata. O ódio é, enfim, quase onipresente. E temo que possa se tornar onipotente.

No fim, só há um caminho possível. Antes de todo o mais, antes de qualquer debate. Apenas quando tivermos uma base sólida de sensibilidade, que nos permita ver o outro como sangue vermelho do nosso sangue, é que vamos começar a sair do charco moral no qual nos enfiamos.

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