Pequenos anjos (caídos)

Ela parou bem ao meu lado. Nem a vi chegar. Era tão miúda que batia no meu ombro mesmo eu estando sentado.

– Me dá um pouco da sua comida?

Virei-me e encarei aqueles olhos enormes que me fitavam com expectativa. Estava com um vestidinho puído e seus cabelos loiros eram quase castanhos de tanto sol. Parecia uma ciganinha.

– Do meu prato? Faz assim: por que você não vai até aquela moça – apontei para a garçonete atrás do balcão – e pede o que você quiser?

Silêncio. Um sorriso se abriu e ela foi ter com a balconista. Enquanto percorria os poucos passos, me olhou umas três vezes, como que incrédula, querendo confirmar que eu não mudaria de ideia.

– Ei! Viu, dá pra ela o que ela quiser e anota na minha comanda, tá? – avisei a mulher, que fez uma cara de contrariada, como que desejando que alguém do restaurante tivesse expulsado a menina antes de ela me alcançar.

Devia ter uns 6 anos. Nem conseguia enxergar direito os salgados que estavam ali exibidos, mesmo na ponta dos pés. Apontou para algum deles e recebeu seu saquinho. As mãos, tão pequeninas, seguravam com firmeza o pacote.

Antes de sair, com pressa, virou-se para mim uma vez mais. Desta vez, porém, eu não soube decifrar o que havia naquele olhar. Acho que era um olhar de criança, apenas. Ingênuo, espontâneo, puro. Não me sorriu, apenas me fitou como fazem os bebês: direto nos olhos.

Não consegui terminar a comida. Só pensava numa coisa: ela é apenas uma criança! Ela sequer entende a situação que vive. Aliás, não deve nem conhecer outra. Pediu comida do meu prato como eu, na mesma idade, pediria algo pra minha mãe. Ela não entende ainda. Ela é só uma criança…

Claro que não é a primeira vez que lido com uma situação assim. E é certo que a fome dos adultos também me comove. Mas eles sabem como o mundo é cão. Eles sabem em que tipo de sociedade doente estão inseridos. As crianças não.

Pequenos anjos cujas asas foram arrancadas. Infância roubada. Inocência violentada, escarrada, pisada. Tutores de si mesmos, desamparados, jogados à própria sorte. Nosso maior bem, nosso tesouro, nosso futuro. É isso que estamos desprezando. É a isso que estamos dando as costas.

Anúncios

4 comentários sobre “Pequenos anjos (caídos)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s