O muro

Por Davi Sabry

Seu Zé, levante um muro aqui. Se preocupe com o tamanho não, homi, que quanto mais cedo a gente começa mais logo a gente termina. Mas faça alto, que não quero cabra espigão espichando o olho pro lado de cá. Chame também Severino pra ajudar, o de Maria, do finado Zacarias. E seu inventor, João Cabral de Melo Neto, que inventou de desencarnar antes de inventar uma história boa pra falar desse grande feito muralístico.

Do lado de cá comece logo botando a Iracema de José de Alencar. E aquele tal de Nelson, o Rodrigues, pra abrir os olhos dessa gente sobre a vida, do jeitinho que ela é. E pra não dizer que não tem mascote, chame Graciliano Ramos com a cachorra Baleia pra ficar por aqui também.

Continue aí com Manuel Bandeira, Jorge Amado, Castro Alves, Raquel de Queiroz, José Lins do Rego, Ariano Suassuna, Patativa do Assaré… Peça pra tudim redigir uma carta, cada um a seu modo, avisando pros do lado de lá que agora não tem mais choro nem vela, só tem muro. Peça também pra Augusto dos Anjos fazer uns versos pra ver se amolece o coração desse povo. E pra quem ainda não entendeu que ovo não é galinha, chame Clarice Linspector pra esclarecer pra esse Zé Povinho. Você não, Seu Zé. Vosmecê tá do lado de cá.

E se algum fulano chiar, mande Ruy Barbosa, diplomata dos bons, pra apaziguar.

Pra inaugurar, vamos ter Wagner Moura, Marco Nanini, José Wilker e Chico Anysio encenando o “Auto do Muro Alto”. Chame Chacrinha pra fazer os introdutório do espetáculo.

Deixe Caetano e Bethânia de fora não, muito menos Raul Seixas, Luís, Gonzaga, Lenine, Fagner, Antônio Nóbrega e Elba Ramalho. Neste tempo de necessitança é preciso de um tiquim de música pra sossegar a caristia d’alma.

Deixe aqui também os maior número de aprovados no ITA, que os dotô vive falando que é o tal do vestibular mais difícil do nosso país. E aquele pessoal do Porto Digital do Recife, o maior parque tecnológico entre o Oiapoque e o Chuí, deixe tudo isso por aqui.

Deixe tapioca, acarajé, água de cocó, munguzá, vatapá, baião de dois, pitomba, jambo, siriguela. Deixe o xote, o baião, o forró, o frevo que é patrimônio imaterial da humanidade, mas nasceu e se criou foi pelas bandas de cá. Não precisa importar nada, que lá nos estrangeiros pode até ter coisa boa, mas melhor que essas não tem, não senhor.

Pra finalizar, pegue ali também aquela ruma de água salgada, aquelas onde a gente não sabe nem onde começa o céu e termina o mar. Coloque tudim aqui, bem lá no cantinho.

Pronto! Eita murão bonito, Seu Zé. Agora tá tudo bem.

Mas que zuada é essa? Espie se não é o povo do lado de lá querendo entrar. Buscando nossas preciosidades, nossa renda de bilros, nossa criatividade, nosso camarão, nosso bom humor, nosso vil metal, nossa cultura, nossa castanha de caju, nossa arte, nossos cérebros mais notáveis e mais um monte de coisa que ficou do lado de cá.

E tu, Seu Zé? Tá chorando por mó de quê?

– Peste de muro! Perdi meu maior tesouro. Zezim, meu fio, ficou do lado de lá.

Tenha raiva do muro não, Seu Zé. A culpa não é dele. Tem um monte de gente que não sabe, mas essa é só a natureza de todo muro: quando ele sobe, todo mundo fica um tiquim mais pobre.

Para ver mais textos de outras pessoas que colaboraram com este blog, use a tag “contribuição”.

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