Amor patagônico

O dia amanheceu bravo, o vento cortava a pele e minhas mãos azuladas tremiam ao segurar o cigarro. Sensação de -7ºC. Muita coisa. Mesmo para um paulista.

Alejandro chegou. Grande amigo que fiz lá mesmo, em Ushuaia. Era dia de fazer a tão famosa viagem de barco e torcer por pinguins. Ou até mesmo uma orca, quem sabe?

– Vamos con eso! Quita con su cigarrillo que también tengo frío, dale? – ele fazia sempre questão de me lembrar que os nativos sofrem tanto quanto os turistas.

Embarcamos. No fim, eu não veria pinguins nem orcas, mas algo muito mais interessante. Logo que entramos, meus olhos encontraram os de uma das garçonetes, tão negros que íris e pupila pareciam uma coisa só.

– Seas más discreto – aconselhou meu amigo, divertido.
– És tan hermosa, Ale! – respondi, ainda fitando a moça – La conoces?
– Seguro! Su nombre és Alicia. Por qué no hablas con ella? – além de guia turístico, ele tinha um quê de conselheiro amoroso.

É claro que não fui. Já sou tímido o bastante no meu próprio idioma, que dirá em outro cuja única palavra que pronuncio perfeitamente é “cerveza”!

Passamos o dia entre cormorões e leões-marinhos. O barco já voltava. Enquanto eu tomava meu expresso, Ale conversava com as meninas no balcão, inclusive com a minha musa argentina. Ele voltou com um sorriso capcioso no rosto.

– Qué pasó? – eu estava curioso, claro.
– Ella te gustó a vos. A ella le gustó su tipo.
– No mientas! – eu estava alegre e desesperado ao mesmo tempo.
– No miento. Alicia és su nombre. No se olvide.

Relutante, fiquei ainda uns 10 minutos na mesa. Em mais 10, chegaríamos ao porto. Então, ela foi fumar. Era o momento. O único que eu teria. Engoli o que restava do café e fui atrás dela. Ouvi o riso baixo de Ale enquanto me afastava.

– Hola, puedo sentarme acá? – perguntei, tremendo (não só de frio).
– Claro! Vení! Como te llamas?
– Thyago. Y vos sos Alicia, no?
– Ale, Ale… – ela riu.

Não vou aqui transcrever meu xaveco ipsis litteris. Até porque ele foi bastante rudimentar, infanto-juvenil até. Em resumo, ao fim dos nossos cigarros, perguntei o que ela faria naquela noite, após deixar o trabalho.

– Saliria con vos, pero tengo un novio.

Bom, ao menos foi o fora mais sutil e delicado que já levei. Voltamos para dentro, o barco já fazia manobras para atracar.

Ale me consolou como pôde. O sinal tocou, hora de ir. Ele foi cumprimentar as meninas, fui atrás. Me despedi formalmente de todas, inclusive de Alicia. Quando já estava na porta, ela me chamou. Voltei.

– Un abrazo? – aqueles olhos de novo… Ah, eu morreria para tê-los!
– Por qué no? Además, no nos vamos a ver de nuevo…
– Pero que importa eso? No nos teríamos siquiera encontrado si vos nunca tuvieras viajado 4 mil kilómetros, cierto? – ela levantou as sobrancelhas, eloquente.

Ela me beijou longamente no rosto. Sério, algo como 5 segundos. Me deixou um sorriso e um “Cuídate!”. Eu não consegui pronunciar palavra.

– Vos pareces mejor ahora – brincou o argentino, enquanto andávamos pela orla.
– Yo tuve la chica por algunos minutos, Ale – eu olhava para o barco – Por poco tiempo, tuve su atención. Eso és una cosa que nunca iba a acontecer… si yo no viajase 4 mil kilómetros.
– Me alegro de que pienses así. Vení, vamos a comer algo. Cae la noche. Y Alicia… bueno, ella siempre estará aquí – apontou para o meu peito – Aquí dentro.

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