Outro breve diálogo

– O que mais deseja nesta vida?

– Estar vivo.

– Ora, pensei que fosse mais ambicioso! Apenas isso?

– É muito, a bem da verdade. Tenho refletido sobre o assunto. Creio que não damos valor devido à existência por não sabermos como é a não-existência.

– Tenta me dizer, portanto, que é melhor qualquer vida, ainda que atormentada, do que vida alguma?

– Grosso modo, sim. Está claro que ser preso a uma cadeira de rodas ou a um leito de hospital não é prazeroso, entendo isso. De toda forma, é existência. É melhor que o vazio, o nulo.

– Não é fácil demais fazer tais afirmações sem nunca ter experimentado a miséria ou a severa doença, meu amigo? Filosofia de classe média, não acha?

– Não tiro sua razão, jamais estive em apuros como os que você descreveu. Contudo, conheço bem a depressão, que é a morte em vida. E é precisamente pela “filosofia de classe média” acima que consegui me livrar dela.

No mais, sei que não posso ditar uma regra para todos os seres humanos, mas gostaria de vê-los, de forma geral, mais preocupados em viver APESAR dos problemas do que por eles.

– Entendo o que quer dizer, em que pese a questão toda ser muito mais complexa do que se imagina. Vamos esquecer por um momento, então, dos gravemente enfermos e daqueles que precisam fugir diariamente da inanição. Falemos de quem já tem o mínimo. Será uma reflexão mais honesta.

– Até porque quem luta contra a fome não está exatamente em condição humana. Tem razão, nos atenhamos à nossa realidade, aquela em que a sobrevivência, ao menos a fisiológica, já está garantida.

– Partindo, portanto, desse grupo seleto, voltemos à sua afirmação inicial: seria belo se os homens levassem a existência de forma mais leve, uma espécie de carpe diem diário. É o que sugere?

– De certa forma. Veja, vou respaldar meu argumento: para que sejamos felizes, em qualquer medida, é preciso antes estarmos vivos. Parece óbvio demais, beira o ridículo, eu sei. Mas não é.

Não sabemos nosso prazo de validade, tudo que conhecemos, tudo o que somos, pode evaporar em um descuido, em uma crueldade. Andamos por aí preocupados demais com pequenezas quando podemos ser ceifados a qualquer momento. Nós e nossos amados.

– Seu argumento é irrefutável quando diz que para ver a felicidade é necessário, em princípio, PODER VER. Não o refuto e nem poderia fazê-lo se quisesse. Contudo, não teme cair em certo tipo de conformismo? Não teme o “nivelar-se por baixo”? Exemplifico: toda e qualquer desgraça é aceitável, pois estou vivo.

– Sua preocupação é relevante. Não desejo, claro, sorrir para todos os infortúnios que me acometerem. É tanto mais diminui-los e colocá-los em seus devidos lugares, não deixar que se alimentem do fermento do desespero e se inflem até tamparem completamente nossa visão.

Sabe, ultimamente venho tendo uma sensação que pode facilmente corroborar o que digo. Quando fico ciente de uma morte, principalmente de um jovem, penso: como esse alguém gostaria de estar no meu lugar! Com minha dor no siso, com minhas dívidas, com meu namoro em ruínas. Ele gostaria até de estar aqui, no mundo dos vivos, sob a pobreza extrema. Afinal, ela não o impediria de abraçar seus amados, de ver o nascer do Sol. Não o impediria, enfim, de ter a CHANCE de sorrir ou sofrer.

– Amenizar a tragédia, como já pregava Nietzsche. Percebo aonde quer chegar. É um tema profundo demais para se resumir em uma conversa de bar, mas sua premissa me parece correta: concordo que devemos dar mais importância à vida, pois ela é o começo de tudo, seja dádiva ou treva. Relevar miudezas, ignorar pequenos revezes, descabelar-se apenas pelo que realmente exigir grande preocupação.

– Tal como a nossa conta de hoje?

– E que tem ela? Carpe diem quam minimum credula postero.

– Eis aí o espírito! É disso que falo desde o princípio! Saúde, meu velho!

– Vida, meu amigo. Vida!

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