Menino Luz

Talvez não eu pise mais esta terra quando tu puderes entender, e não apenas ler, o que escrevo. És sangue do meu irmão, meu mais benquisto companheiro de luta, e, portanto, és sangue meu também. Se fores metade do que é hoje teu pai, serás grande, Menino Luz. Mas sei que serás ainda maior. Vi em teus olhos. Senti na tua pequenina mão, que agarra tão forte. Dos Bálcãs, é de onde vens. Obstinado, firme, antevejo tua ascensão.

Tua graça não poderia ter sido melhor escolhida. Deus de ti mesmo, mas, para antigos homens, deus do Sol e, escuta esta com máxima atenção: da luz da verdade. Diziam que Apolo era o purificador de pecados (dos quais estamos sempre tão cheios) e símbolo da inspiração artística. Era a arte na forma mais excelsa. É… tua graça não poderia ter sido melhor escolhida.

Envelhecemos, eu e teu pai. E vê só como a natureza é tão implacável quanto bela e justa: enquanto definhamos, tu cresces. Afloras, robusteces, vitalizas. E assim que é, meu menino: tua beleza e força só vêm com a nossa queda. Fiquei a remoer isso desde a primeira vez em que te vi. Mas não com pesar. Entende: o ciclo é mais sublime que cruel. No nosso leito, veremos teus braços pegarem na enxada que já brandimos. E continuarás nossa empreitada.

Eis que te digo, contudo, que não seguirás caminho algum por lei. No teu tempo, verás o que é certo. No teu tempo, reconhecerás no espelho o ferino olhar de teu pai, o negro, o latino, o pobre, o exilado. E aí, ah, meu menino… e aí tuas veias pulsarão incontroláveis, e formarão o mesmo mapa que teu velho hoje carrega no braço direito.

É meu desejo que tudo seja paz quando puderes ler isto. Pois hoje há guerra. Há um exército contra um homem só. Um dia, um dia tu te sentarás com teu pai e saberás do que falo. E só poderás fazê-lo pela perseverança desse homem, pela peleja que trava todo dia para te ter junto dele. Tu és um tesouro, Menino Luz. Um tesouro muito cobiçado por piratas. Por velhos piratas.

Este é meu presente para ti. O primeiro de muitos, espero. Não é coisa que valha qualquer cascalho, são palavras quaisquer de um pretenso escritor, mas é tudo que sei fazer, é minh’alma no papel, é o que faz meu sangue correr quente. Meu voto é que tu aches também tua paixão. E que te realizes nela.

No fim, sofrerás muito, Menino Luz. É verdade. Mas sorrirás também. E é só da treva que vem o amanhecer, lembra-te sempre disso.

Ao pequeno que ainda será maior que todos nós, com todo meu amor.

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