Do que (quase) fomos

Você sempre me pediu um texto, não é, minha menina? Disse-me, certa vez, que antes mesmo de nosso primeiro encontro já conhecia meus escritos, que já se apaixonara de antemão, sem saber sequer o timbre de minha voz, o toque de minhas mãos (tão grandes perto das suas!).

Correram, esses últimos meses. Leves, límpidos, como há muito eu não experimentava. Abraçamos um ao outro e também a vida. Ao seu lado, fui Thyago de novo. Fui o menino de antes da dor, fui aquele garoto que ainda sabia amar. Sem perceber, e tampouco almejá-lo, você me fez vivo novamente.

Aqueles atentos olhos “verdes-castanhados” me fisgaram de instante, e o fato de eu fitá-los com ardor foi o que te agradou. “Acredita que o último cara só olhava para a TV? Parecia que eu nem estava lá!”, desabafou, enfática e indignada. “Louco, só pode…”, foi a resposta que consegui articular, em transe.

De uma cerveja no Ibotirama a São Tomé das Letras, passando por parques, exposições, cinemas, bares, restaurantes. Havia muito que eu não tirava meu corpo e mente deprimidos de casa, havia muito que eu não via e vivia dessa forma. Você foi meu desfibrilador.

O papo fácil, a risada gostosa que eu adorava ouvir e fazia de tudo para provocar: foi natural, a intimidade cresceu em progressão geométrica. Sentia que já te conhecia há anos. “Ei, faz massagem no meu pé sujo aí!”, você riu e esticou a perna no meu colo. Acabávamos de voltar de uma trilha, seu pé parecia um carvãozinho tamanho 36, mas eu o ataquei com gosto. Já éramos “nós” ali.

A confiança crescia, o sentimento idem. Sentia-me seguro, achava que finalmente havia encontrado A menina. Brigas? Nenhuma. Cara feia, mau humor? Só quando estávamos com fome (e como ficávamos insuportáveis!). Era bonito, era calmo, era, sobretudo, leve. Mas faltava algo.

Ainda não sei dizer o que é, não sei explicar, desconheço os sombrios caminhos do meu próprio coração. Em dado momento, comecei a pensar não só nos próximos meses, mas nos anos que viriam. E não te vi lá.

Talvez seja a idade. Chegamos a um quarto de século, não é? E mais: chegamos juntos! Vou sempre contar esta história às pessoas: ela também era do dia 25 de janeiro. E de 1990.

Mas, de volta ao tormento: você não aparecia no meu futuro. Desde aquele primeiro domingo na Augusta que eu já notara: éramos diferentes. Bastante diferentes. Tento colocar a culpa nisso, mas não me convenço. Sou apaixonado pelas suas roupas de bicho-grilo, pelos seus papos de bióloga, pelas pequenas aulas que você me dava sempre que eu, curioso, insistia em alugar seus conhecimentos sobre Lamarck e mitocôndrias.

Espero que um dia eu descubra o que me levou a te puxar e dizer: “Não amo você. E acho que jamais vou amar”. Eu suava frio e tremia em plena noite de verão. “Tenho medo da gente a longo prazo”, completei. Estava apavorado para ouvir o que você ia dizer.

Em que pese meu ego ter sido ligeiramente ferido, foi com alívio que recebi sua resposta: “Também não amo você. E também temo pelo nosso futuro”. Estávamos, então, na mesma página. Uma página cretina, filha de uma puta, mas na mesma página.

Entre uma garrafa e outra, abrimos ainda mais nossos corações naquele dia. E eu que pensava não haver mais nada a contar. Ah, se havia! “Gosto de outro cara”, você confidenciou, baixinho. E eu não podia ser menos sincero: “Também gosto de outra menina”.

No fim, ficamos os dois a lamentar: “Por que não pode dar certo? Por quê?”. Até na desgraça estávamos juntos. Voltamos pra casa, dormimos abraçados nossa última noite.

E hoje, na companhia de uma chuva torrencial (e providencial), além daquele single malte que você sabe que gosto, te escrevo o texto que você sempre pediu. Claro que eu jamais quis que o tema fosse este, mas aqui está. Aqui está com o carinho que nada mudou, com uma saudade cafajeste e um pesar injusto. Injusto porque entramos num acordo, decidimos juntos pelo fim.

Sabe, qualquer que seja o desfecho desta história toda, sinto orgulho da gente. Fomos adultos. SOMOS adultos. Por mais que doa (e dói, acredite), dói menos por saber que estamos juntos uma vez mais, juntos mesmo na nossa queda.

Gosto de você, guria. Como eu dizia toda noite ao te deixar em casa: obrigado por hoje.

Obrigado, obrigado por sempre.

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