O começo

Fuçando em caixas antigas, topei com uma folha cujos escritos à lápis logo me chamaram a atenção. A letra de mão, quase ilegível, não deixa dúvidas: é algo de muito, mas muito tempo atrás. E digo isso não porque minha caligrafia tenha melhorado – ela continua ilegível – mas porque eu escrevo em letra de forma desde, sei lá, meus 10 anos.

Não há data, mas posso chutar: acredito que essa pérola foi redigida por volta de 1998, quando eu tinha 8 anos. É, eu comecei cedo. Lembro-me de que escrever era um de meus passatempos prediletos, o que causava estranheza não só em meus amigos, mas também em meus pais. Tenho guardadas, em algum lugar que eu ainda sonho em encontrar, histórias de 20, 30 folhas (ou seja, 40, 60 páginas). E pensar que hoje ando doido para escrever uma narrativa sequencial e não consigo. Minha criatividade parece ter ficado na infância.

Algo que não mudou, contudo, foi minha absoluta falta de modéstia. Com uma risada alta e sincera, li, no topo, o seguinte título: “Grandes Clássicos”. Eu mal sabia me limpar direito, mas já me achava o pequeno Rubem Alves do ABC. Crianças… talvez um dia eu me convença a ter uma só para poder me divertir com esse tipo de coisa.

É nessas horas que eu começo a me conformar de que estou realmente ficando velho e não tem mais volta. E não é nem pela relíquia que encontrei, mas pela alegria que ela me proporcionou, pelos vários minutos seguidos nos quais fiquei a olhar para o papel com um sorriso idiota no rosto.

No mais, transcrevo abaixo meu “grande clássico”.

Olá, amigos! Aqui vai uma emocionante história de um menino que sonhava viajar mundo afora. Mesmo sendo um garoto privilegiado de classe alta, era uma tarefa difícil.

Era uma vez, em Londres, um menino rico, de classe alta, que tinha um desejo: viajar mundo afora.

Apesar de ser um menino privilegiado, seus pais diziam que ele teria seu próprio dinheiro para essas coisas. Mas seu “money” não dava nem para viajar duas vezes de avião, e, mesmo que viajasse uma vez, como iria voltar?

Então, teve a seguinte ideia: “Vou gastar meu dinheiro em peças para construir meu próprio planador!”.

Como era mesmo muito inteligente, conseguiu criar seu próprio planador. Pegou impulso através de uma corrente fortíssima de vento e levou o resto do dinheiro em um cantil, pouca coisa.

E lá foi ele num planador feito de madeira. O Big Ben, o relógio mais famoso do mundo e com altura de um prédio de 10 andares, foi seu primeiro alvo!

Olhou, tirou fotos e prosseguiu. Dali 2 horas de viagem, passou perto do castelo da Rainha Elizabeth II. Desceu do planador e foi falar com um guarda.

– Será que eu poderia entrar no castelo, senhor?
– Hoje não, garoto.

Ficou triste e perdeu todo o ânimo para viajar mundo afora, mas viu uma placa escrita assim: “Conheça o mundo em palavras”.

Leu na placa que:

– Sabia que nos países latino-americanos se dirige do lado esquerdo?
– Sabia que na Arábia Saudita as mulheres têm que esconder o rosto por causa da religião?
– Sabia que no deserto, à noite, faz temperaturas abaixo de zero?

Entre outras novidades que aprendeu, voltou feliz para casa. E, é claro, com seu planador!

Mas que bela grafia!

Mas que bela caligrafia!

Escrito em 1998Para ver mais textos produzidos antes da criação deste blog, use a tag “arquivo”.

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11 comentários sobre “O começo

  1. Ah… eu tenho, em meus ‘organizados’ arquivos, outras histórias escritas por você (e até poemas).
    Obs.: mas na América Latina dirige-se (veículos) pelo lado direito. Porém, talvez vc tenha se referido à direção política…. hahahahah

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