O trânsito parou

Por Leila Leal Lima

O trânsito parou. Eu também parei. O pensamento continuou em qualquer detalhe da última reunião antes de deixar o escritório. Quatro crianças se aproximavam dos carros em fila. Deviam ter entre três e oito anos. Irmãos, talvez. Mas e os pais? Onde estão? Não vejo pais. Só as crianças: quatro. Sabe, não gosto de dar dinheiro no farol. Dinheiro, não. Dou qualquer outra coisa que estiver no carro, mas dinheiro não gosto, não. Acontece que criança mexe com a gente, né? Um dos menores encosta no meu carro. Chuto que ele tem quatro anos. Devo ter alguma coisa na bolsa, deixa eu pegar a bolsa… só mais um pouco que ela está embaixo do banco… Como me irrita ter que esconder a bolsa embaixo do banco. Mas estou em São Paulo: tenho que esconder a bolsa, fechar o vidro do carro e sair mais cedo do trabalho às sextas por causa do rodízio. “Tia, você tem água?”. Eu não tinha alcançado a bolsa ainda. Ele queria água. Eu tinha água. Caramba, eu nunca fiquei tão contente em ter uma garrafa d’água dentro do meu carro! Pelos olhos dele, ele também não. “Obrigado, tia”. Pausa. “Seu carro está machucado, você viu?” – e apontou para a batida na minha lateral esquerda. O trânsito andou. Eu também andei.

Não, meu carro não está machucado, pequeno desconhecido. Eu que estou.

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