Cidade do amor

Que sombra é esta que te cai na face, acabas de ter-me e já te colocas nublado, É nada, deixa estar, exaurido somente, Elogias-me, Também, alcança-me o charuto, Cá está, Agora quem retorce o rosto és tu, Bem sabes que não me apetece o odor de tua morte lenta, Apenas de meu suor a pingar-te na testa, esse sim. A bela abriu sorriso largo, se pôs de pé e passos leves a levaram à sacada. Nua para toda Paris por ti apaixonar-se, É a cidade do amor, o qual, aliás, imagino se por mim ainda nutres, Disparate é esse meu bem, Sê franco, há muito teu coração só pulsa por fumo, uísque e meretrizes, Ofendes-me, Culpa não é minha que escolhas as mais feias, Basta. Levantou-se e foi ter dose de qualquer 12 anos.

Responde-me que tempo não tenho a perder, já me vou além dos trinta e quero homem de verdade, persistiu. Que queres que eu diga exatamente, posso saciar teu desejo de sofrer, teu drama vitoriano, tua encenação degradante, A verdade, tão somente ela, te imagina com uma bíblia sob a mão direita a jurar perante júri, Júri de uma mulher só, e tresloucada ainda por cima, Isso sempre o fui e aceitaste meter-te comigo, Porque levas as mais encantadoras das linhas, Pareces falar dum corte de carne, Deixa lá de sentimentalismos que somos já velhos para eles.

Aproximou-se, mas a esposa de passos leves demonstrou a razão de sua alcunha e desviou-se com desenvoltura do toque apaziguador. Agora fica aí a amedrontar os olhares que há pouco atraí, Que há, minha forma já não te agrada, Larga lá de sentimentalismos, sabes que para isso não dispenso importância, Sei, apenas para devaneios de que não mais te quero bem, Não me amas e relutas em reconhecê-lo por seres ciente de que a mulher que queres jamais poderás tê-la uma vez mais. Neste segundo, desceu forte o copo contra a mesa de vidro, fazendo partir ambos, e de prenda ganhou profundo corte na mão. Que é isso homem, ensandeceste. Nenhuma resposta que não um murmurar sombrio. Ora, toma aqui esta toalha, aperta firme enquanto busco primeiros socorros, Nua, Que pergunta seu tolo, mas também não vou me meter em vestido de gala para salvar-te a pata, corro de roupão à farmácia em frente, me espera e trata de não te ferir mais.

Não me ferir mais, repetiu para si em alto som. Impossível seria, coberta de razão e de um fino roupão ela se manda a socorrer-me, como tem feito nos últimos anos, tenho de falar-lhe, e assim o farei quando regressar esbaforida e preocupada com aquele que a rasgará os sentimentos.

Volta mesmo aos trambolhões. Estende a ferida que logo invento um curativo que suporte o caminho, Que caminho, O do hospital, está claro que te hão de dar aí alguns pontos, não vês a gravidade de tua chaga, Se vejo, e tu a viste afinal, e me ponho entregue, exausto de maquiá-la para que não a notes, Falemos disso noutro momento, não é hora, limpa aí enquanto te busco qualquer pano para que cubras as partes, A hora é esta e não me movo, me ouve. Pronunciou este último imperativo com tamanho vigor que ela, de fato, parou. A sério, Nunca antes falei tão sério meu bem, agora escuta e escuta atenta.

Esticou a mão sã, agarrou o apagado charuto e nele pôs fogo. Ao término da terceira baforada, principiou. Direto serei, não a amo, estás correta em tua acusação, Não era minha intenção acusar-te, Deixa-me terminar, estás correta, então, em tua desconfiança, suposição, hipótese ou qualquer outro nome que queiras dar, amo outra que me é maldição, a qual arrasto às costas desde muito antes de ti, e nem quando me deito ao teu lado, nem quando do teu corpo me aposso ela me deixa o pensamento, de tudo quanto é remédio já provei, do jogo já bebi tanto quanto do álcool, do tabaco já suguei tanto quanto de mil mulheres, e tu és mais uma, a mais importante das vítimas, mas ainda sim mais uma, me iludi ao supor que seria capaz de ludibriar meu próprio sentir e colocar-te como protagonista de minha vida, luz única de meus olhos, me enganei, evidente, e agora repararei minhas faltas e prevenirei qualquer outro coração de entregar-se às minhas mãos rotas.

Ergueu-se da cadeira e sentou-se à mureta. Santo deus, sai daí, te afasta, nem ousa brincar meu amor, vem cá abraçar-me, te afasta, Meu bem deixa de gritos que despertarás nossos vizinhos, te acalma que a dor já há de passar, Marido que insanidade é esta agora, não é jeito de nada resolver, não me importa que seja ela a dona do teu pensar, somente vem abraçar-me, Mas a mim importa meu bem, farto estou de viver com fantasma sobre meu ombro, assombração medonha, eu a amo e ela me despreza, tudo que me resta são pútridas lembranças e fotos gastas num álbum gasto, sorte tua a minha esterilidade, que não permitiu crescer em teu ventre filho meu, Marido por favor volta, não te ponho mais à parede, nada mais sobre isso comentarei, Não se trata disso, tu me abriste os olhos, foste minha última brisa, a qual tentei com toda a força de meu pulmão doente inspirar, sou todo tomado, alma e carne, pela ninfa do mal de quem falei, e tu a conheces de vista, sabes que naqueles duros olhos nada de bom pode prosperar, Marido, Já me vou meu bem, que fantasma algum pode sentar-se ao ombro de outro, me perdoa, me perdoa por tudo.

E a cidade do amor tingiu-se de vermelho, a mesma cor das paixões, as em curso e as jamais curadas.

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6 comentários sobre “Cidade do amor

    • Sabe o que é o mais legal disso tudo? É que você, na verdade, não errou. “Enquanto (estás) vivo, tu és ‘alvo desse nefasto julgamento'”.

      Ok, mentira, o mais legal mesmo é a referência. E ah, se eu tivesse a sorte de ser julgado apenas por pessoas como você! Tudo, tudo seria então mais fácil.

      No mais, tenho preferido a companhia dos bêbados à dos sóbrios ultimamente. São os que mais têm propriedade para falar da (e do) moral alheia(o).

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      • Tem razão! Li seu comentário e lembrei que a Marina das 12:46am tinha mesmo usado o ‘vivo’ nesse sentido. Mas a Marina das 4:03am, já sonolenta e ainda mais alcoolizada, com a capacidade de interpretação de texto limitada, julgou mal a Marina 3 horas mais jovem (e ficou tentando encontrar um botão para editar seu comentário, mas como uma mera leitora, não foi autorizada pelo wordpress a ter esse privilégio que o Thyago das 3:16pm teve, ao optar por remover “minha menina” de seu comentário).

        Não há de que pela referência. Não sei bem o que responder sobre a sorte de ser julgado por pessoas como eu. Nem sei dizer o que são pessoas como eu. Além disso, estou sóbria agora, então já não sou a melhor das companhias nem das juízas.

        De qualquer forma, vejo que a crase foi devidamente removida.

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  1. Jura que não há como editar? Sempre pensei que dava, e inclusive ia citar isso na resposta anterior, mas achei que soaria meio arrogante. Além do mais, gosto de comentários, quaisquer que forem (mesmo aqueles que me colocam na parede citando correções que eu achava ter feito a tempo de não serem vistas).

    Quer saber o que é uma “pessoa como você”? Vou lhe dizer: é daquela rara gente sensata, que quase sempre se não habita o mesmo barco que você está navegando em um bem similar. Você também respira arte. E de formas que eu nunca poderei experimentar pois me falta talento para tanto.

    Por fim, você é sempre boa companhia. Seja em que grau etílico for.

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