Mais um breve diálogo

– Tu escreves como se tua história a alguém interessasse, até com certa soberba. Achas mesmo que juntar algumas palavras bonitas faz de ti qualquer grande coisa, que te confere importância?

– É a sina de todo aquele que despeja sobre o papel suas mazelas. Tendem a amenizar as críticas quando partimos, quando sob muita terra já vermes devoram nossa carne. Aí, de repente, não mais que de repente, somos alguém, já perdemos a aura pretensiosa e arrogante à qual tu te referes. Não te soa por demais injusto? Quiçá até triste?

– Sabes bem como me desarmar, como sempre. Tens razão, não me parece correta tal postura. Ou tu és admirado em vida e também depois dela ou não deverias sê-lo em momento algum para começar. Pensas que serás alvo desse nefasto julgamento?

– Certamente. E posso até te apontar quem hoje são meus juízes e amanhã passarão a advogar em minha causa.

– Ela. Principalmente ela, eu suponho.

– Precisamente. É insano como imagino, dia após dia, o momento em que ela ficará ciente de minha partida e como, a partir da notícia, passará a reler cada frase minha de maneira completamente diferente.

– Com admiração?

– Talvez. Mas melhor que isso: com compreensão. E entre uma lágrima e outra que meu orgulho roga para que ela derrame, entenderá, finalmente, tudo que um dia lhe escrevi. Contudo, já então será demasiado tarde.

– Corta-me te ouvir. E se ela ler esta conversa, a qual certamente tu publicarás naquele teu blog? Compreenderá, por fim, teu pesar? Ainda alimentas esperança de que a menina te dirija qualquer atenção?

– Entende: há muito já não me importa se ela tem ou não contato com o que escrevo. O faço para aliviar meu coração, não para convencê-la do que quer que seja.

– Mas tens de confessar que muito te agradaria saber que ela conhece tua dor.

– Evidente, meu amigo, evidente. No íntimo sempre há qualquer ponta de esperança, sempre há uma flama que insiste em não se apagar. Mas repito: não escrevo para ela, apesar de escrever sobre ela.

– Será? De qualquer maneira, o que mais me preocupa é ver quantas mulheres já te deixaram e quantas outras ainda hão de partir por ler tudo isso. Se já não te interessa que ela o leia, por que ainda escreves? Ou, se teimas tanto em continuar, por que não guardas para ti os teus escritos? Por que escancarar dessa forma tua vida, se ela sequer reconhece qualquer importância em teus sentimentos? Por que deixar que tripudiem de ti, por que ser alvo de chacotas, por que perder constantemente tantas oportunidades com outras meninas?

– Porque eu a amo. E é isso que o amor faz, meu caro. Ele te parte ao meio todos os dias para que tu arranjes uma forma de te costurar, e na falta dos braços dela escrever passou a ser meu único remédio. Sobre tornar público meu calvário, o faço porque… bem, porque me importa, sim, que ela me leia. Menti.

– Eu sabia que estavas mentindo, não me podes enganar quando falamos dela. Teus olhos revelam tudo o que desesperadamente tentas esconder. Mas sigo te questionando: se já entendes ser impossível tê-la uma vez mais, se estás tão certo de que ela jamais te concederia uma última chance, por que insistes? Por que, meu amigo, por quê?

– Porque eu a amo. E é isso que o amor faz, meu caro. Faz de nós idiotas irreparáveis.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s