Alexandre ou (A Doçura do Desatino)

– Olá, meu nome é Alexandre, como é o seu?

Eram nove horas da noite, a rua estava deserta e eu espiava a geladeira de uma banca solitária, último resquício de comércio aberto na Gentil de Moura. Não tive tempo de responder, apenas de apertar a mão amistosamente estendida, que já aguardava alguns segundos na mesma posição.

– Não quero te incomodar, mas é que eu sou portador de esquizofrenia e esqueci meu passe especial. Você não teria algum dinheiro para me emprestar, teria? A propósito, meu nome é Alexandre.

O rapaz da banca, ocupado com os últimos afazeres antes de fechá-la, passou a prestar mais atenção no homem. Não sei se pela menção à doença, pelo português irretocável ou pelos 2 metros que ele devia ter. Talvez tudo isso. Mas apenas eu podia fitar aqueles olhos azulíssimos, que não piscavam.

– Deixe só eu terminar aqui e já vejo o que tenho para você, tá bom?

Meu excesso de amabilidade era mais por medo do que por compaixão, admito. Não sei se pela menção à doença, pelo português irretocável ou pelos 2 metros que ele devia ter. Talvez tudo isso. Mas aqueles olhos… eles bem que podiam piscar, né?

Alexandre abriu um largo sorriso.

– Você é reservista?
– Oi? – me refiz rapidamente – Ah, sim, sou – deve ter sido a primeira vez que me perguntaram isso.
– Eu também! De onde?
– São Bernardo.
– Sou de Santa Isabel.

Fiquei curioso para saber o que faria ele em São Paulo, mas antes que pudesse perguntar me lembrei de que a resposta poderia ser surreal demais e me calei. Saquei uma Coca e deslizei para passar por ele, que não se moveu. Nem ele, o sorriso ou as pálpebras.

– Me vê um Marlboro Light. Box.
– Dilmista ou aecista?
– Dilmista – respondi sem pensar e logo me dei conta de que poderia ter sido um erro fatal. Literalmente.

O sorriso ficou ainda maior (não achei que fosse possível) e eu tive a ligeira impressão de que ia morrer ali mesmo, estirado entre uma “Contigo” e uma “TiTiTi”.

– Então você deve estar constrangido como eu, né?
– Sim, sim, claro! Um verdadeiro absurdo! – foi aí que aprendi o real significado da palavra “alívio”.

Peguei o troco, dei a ele uma nota de cinco.

– Tá aqui.
– Você não me disse seu nome, disse? Eu sou o Alexandre.
– Thyago.
– Muito obrigado, Thyago! A gente se vê por aí, certamente.

Ele esticou a mão, que apertei sem dizer palavra. Nos separamos, ele foi em direção ao metrô e eu subi.

– Thyago, Thyago, espere!

Olhei para trás, ele vinha trotando pesada e desajeitadamente. O sorriso se fora. Achei que correr seria pior, então parei. Parei e aguardei.

– Você por acaso não faz parte da Força Expedicionária Brasileira, faz?
– …não.
– Ufa! Achei que você fosse me autuar. Então tudo bem. Um abraço!

Não houve abraço e ele tomou de volta o caminho da estação. Não me movi. Fiquei olhando para ele até que sumisse. Acendi um cigarro, me sentei na frente de um velho hotel, logo acima da banca, cuja “cortina de ferro” o rapaz já descia. Me fitou com certo estranhamento por eu ter ficado ali em vez de seguir meu rumo.

– O cara é totalmente louco, hein?
– Pois é… – estava absorto demais para ir além das reticências.
– Bom… boa noite aí.
– Hã? Ah, boa noite.

Fiquei pensando na forma como tratei o Alexandre. Não que eu tenha sido rude, não o fui, mas estava amedrontado demais e por isso fui, de certa forma, muito seco. Mas ele não notou. Ele ficou feliz. E deve ter chegado em casa feliz. E talvez tenha até falado de mim para alguém, o reservista-dilmista que optou por não ser da FEB. E eu? Bom, eu voltei com medo da minha própria sombra, como sempre. Olhando para todos os lados, passadas ligeiras, mãos firmes sobre os bolsos.

É, acho que está claro qual de nós que é o louco.

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2 comentários sobre “Alexandre ou (A Doçura do Desatino)

  1. Conheço a estação de metrô, a banca e o hotel. Agora, conheço um escritor fera (sério, estou impressionada com a qualidade do blog) e um pouco do Alexandre.

    Parabéns, Thy!
    :)

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