Transitório

Àquelas depois de ti.

Aproveita enquanto sou teu. Faz de mim o que quiseres, me toca, beija, ama, deseja. Meu corpo é teu templo e nele regem tuas leis. Toma minha mão na tua e desliza pela tua pele, me ensina a te explorar. Pede, manda, grita, implora. Menina, queres saber? Pouco importa. Diz e eu o farei.

Aproveita enquanto sou teu. Mas deixa lá de pressa que ela tem rinha com a perfeição. O tempo chega quando tem de ser, e nenhum de nós pode mudar seu curso. Então deita tranquila, te aninha no meu peito, me abraça forte e sem jeito, desfruta sem relógios. Eles não podem mesmo te dizer o que queres saber.

Aproveita enquanto sou teu. Esquece meu passado e futuro, pois nenhum deles te pertence. Sou o teu agora, abre os braços para o presente. Cada minuto que te pões a questionar é um a menos, é vida a passar, escorrer, derreter, desperdiçar.

Aproveita enquanto sou teu. Também me faltam respostas, sei tanto quanto tu, desconheço o tempo de minha parada. Dias, semanas, meses? Uma hora tomo rumo, pego estrada, e terás tu me beijado tanto quanto desejavas?

Aproveita enquanto sou teu. Jamais serei inteiro, não te posso entregar meu coração pois nem o tenho. É por isso que sempre zarpo, que caminho sem cessar, para quem sabe um dia reavê-lo. É coisa de peito ferido, rasgado, partido. Se me entendes é porque carregas também cicatrizes.

Aproveita enquanto sou teu. Que mal há em ser “dois” um tantinho, em fazer promessas baixinho? Acendo um cigarro e o vejo queimar como nós mesmos: intensos, fugazes, efêmeros. E o que há além da brasa, o que resta da bituca amassada? Lembrança, e depois nada.

Então aproveita enquanto sou teu. Teus olhos gravo nos meus, teu gosto levo inviolável, trejeitos, risos, beijos que não terminaram. Parto agora porque tenho de ir, meus pés leves me arrastam por aí, sigo a buscar oásis morto, miragem cruel e sem rosto que ainda me há de consumir.

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5 comentários sobre “Transitório

  1. O mal que há em fazer promessas baixinho é que, para algumas pessoas, leite é leite e macarrão é macarrão – leve isso como uma alfinetada, mas sem rancor. E como um conselho a se adotar para as próximas não-ninfas.

    No mais, é legal ler esse texto agora que sei do que se trata. E, sobre isso, o que eu tenho para dizer é algo que talvez você já tenha ouvido de muita gente e/ou de si mesmo, que talvez dê até raiva de ouvir (expressão essa que entra para o hall do “escuta aqui!” por escrito) de mim – se for esse o caso, fique à vontade para desconsiderar: Cuidado para a sua resignação não se transformar numa postura romântica que você gosta de assumir para se martirizar e ela própria te impedir de seguir em frente.

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    • E você me perguntou: “Do que você tem medo? Por que não deixa acontecer?”. Eis aí sua resposta. É por isso que vou embora. É por isso que chamo as pessoas no Skype. Porque leite é leite e macarrão é macarrão. Eu aprendi isso. Tarde, mas aprendi.

      Você bem sabe o quanto aprecio suas palavras e por isso mesmo não vou desconsiderá-las, ainda que eu já as tenha ouvido à exaustão (de mim e de outrem, como você bem antecipou). E não as poderia ignorar mesmo se quisesse porque elas são cheias de verdade. No mais, acredite: não há romantismo, não há beleza na dor. Tudo que eu mais queria é que este post não existisse, que você não tivesse comentado e que eu não estivesse respondendo.

      Torço para que você nunca sofra como eu, mas, se um dia acontecer, você entenderá. Por fim entenderá.

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      • Outrem: gosto dessa palavra. E gosto também de vídeo-conferências que explicam a diferença entre glúten e lactose. Não que eu não goste de ambos, mas estou com suspeita de intolerância a eles (metafórica e não-metaforicamente), então é melhor assim do que seguir aos sussurros com promessas que misturam leite e macarrão (eca, deve ser horrível isso).

        Não entendo totalmente, mas acredito em você. E torço, de verdade, para que você saia dessa vida – e que eu nunca entre.

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  2. Eu me apaixonei de verdade, independente do tempo, da reciprocidade, de você. Por isso não tenho medo algum de “escancarar”, aqui, lá, em qualquer lugar. Nem deu tempo de falar que já estive em seu lugar de fuga, vazio, dor… Mas tive que segurar a mão estendida de outro alguém para (re) viver. Querendo ou não, há momentos que a solidão não ajuda, piora. Não, não estou implorando que fique ou que diga “sim” pra mim… Entendo que cada um escolhe a sua “forma” de sentir. No entanto, preciso, ou melhor, minha dor precisa que saiba: enquanto o que eu sinto estiver aqui, minha mão continuará estendida para você, para quando estiver pronto. Torço para que seja breve, para que seja leve… E que, ao encontrar seu coração, eu ainda caiba dentro dele.

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    • Há tanta coisa que não te pude contar… ando doente, como se nota. E não quero que ninguém se contamine. Não pelas minhas mãos.

      Talvez um dia a gente possa sentar uma vez mais à mesa de um bar qualquer e eu te abra tudo que não tive coragem (ou tempo) de dizer. É longa e penosa a história, e eu odeio repeti-la, mas às vezes preciso fazê-lo – por dever e respeito.

      Não esquecerei de nossos dias. E você, se puder, leve apenas o melhor deles.

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