O striptease

– Gostaria de vê-la nua agora, por obséquio.

– Sim, senhor – ela respondeu divertida, apoiando a taça no criado mudo.

Ela ficava linda assim, com uma camiseta puída do Mickey e uma calça furada dos tempos de colégio, que não trocava por nenhum pijama de seda deste mundo.

– Taram taram, taram… taram taram taram taram taraaam… – comecei a entoar enquanto ela fazia graça no meio da minúscula sala.

– Nunca entendi por que a música de um desenho infantil virou trilha de striptease – observou, ao tirar a camiseta.

Os seios pequenos não precisavam de sutiã. Ela vivia dizendo que colocaria silicone e eu vivia ameaçando que terminaria tudo se ela o fizesse. Estava dando certo até então.

– Uma pantera rosa que investiga um ladrão de diamantes realmente não parece muito excitante – concordei, com um riso.

– Você me ama mesmo com estes trapos? – perguntou, virando o corpo e apontando para o furo bem na bunda.

– Eu te amo exatamente por causa deles. E por este cabernet barato aqui – sorri, erguendo a taça – Agora tira essa calça e deixa a calcinha bege comigo.

Ela riu. Veio em minha direção, se abaixou para me beijar e caiu para o lado, pesadamente. Os olhos bem abertos, a boca espumante, ela estava tendo um derrame.

A convulsão se intensificava, o pedido mudo de socorro era ensurdecedor, os espasmos eram tão gráficos que nenhum filme B de terror ousaria reproduzi-los. Sua vida se esvaía rapidamente, como numa ampulheta de bocal largo, que deixa correr areia demais.

Apalpei desesperadamente os bolsos da jaqueta: “Onde diabos estão meus cigarros? Ah, achei!”. O pequeno bangalô tinha uma também minúscula varanda, lugar mais apropriado para o tabagismo, mas eu não ousava me mover. Além do mais, os pulmões dela não se incomodariam com uns últimos minutos de nicotina.

– Sou pragmático, meu amor – tomei um gole demorado de vinho – Estamos numa choupana, no meio do nada, e uma ambulância jamais chegaria aqui.

Ela devia estar lúcida, pois seu olhar se tornou ainda mais desesperado.

– Ah, quanto a mim? Eu não faço a mínima ideia de como ajudá-la, jamais me preocupei em saber como salvar alguém de um AVC. Sinto muito – recostei a cabeça, dei uma longa tragada no cigarro e fechei os olhos. Ao abri-los, me vi deitado ao lado dela, rostos colados, mas tinham-se ido a espuma e o espasmo, ela dormia serena.

– Caralho, caralho, caralho… – coloquei as mãos à cabeça, o pranto veio rápido, os soluços também. Ela despertou lentamente, mas se pôs sentada como um relâmpago ao notar que eu chorava feito criança.

– Que foi? Meu Deus, calma! O que houve? – os mesmos olhos bem abertos de outrora voltaram a me fitar, mas agora com preocupação, não agonia.

Alguns minutos se passaram, já sentado na beira da cama, com um lenço numa mão e um copo d’água na outra (ambos fornecidos por ela), me pus a contar, detalhe por detalhe, a insanidade à qual meu subconsciente acabara de me fazer assistir. Ela ouviu tudo sem abrir a boca. Ao terminar, eu fitava ansioso o rosto sério dela.

– Bom, Thyago… Eu ao menos espero que você tenha se dado ao trabalho de colocar uma camiseta em mim. Ou os paramédicos ficaram lá olhando pros meus peitos?

O sorriso dela nunca mais seria tão bonito como o foi naquele momento. Eu ri. Ri alto, meio descontrolado, fiz até “porquinho”. Ela me abraçou forte.

– Larga de ser besta. Você é beeem estranho, mas não é um desequilibrado ainda. Ainda.

– Prometo que da próxima vez eu te visto devidamente, tá?

– Por favor, senão eu vou mesmo ter que colocar uns 300 ml de cada lado.

Dormimos. Eu nunca mais a vi morrer. E ela nunca colocou silicone.

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