Desencanto

Eu a vi passar por mim, mas ela não me notou. Seu olhar ia fixo, absorto, olhar lânguido, esbranquiçado. O andar leve e ligeiro era como que automático, levando aquelas pernas de meia-fina para longe, para casa.

Eu a vi passar por mim. E estanquei. Não porque esperasse que ela se virasse e qualquer cena utópica de reencontro tomasse vida dali. Mas porque ela se desconstruía, se dissolvia a cada passo. O som oco do salto zunia na minha cabeça, como marteladas a botar abaixo o altíssimo pedestal que levei anos para erigir, que pedra sobre pedra construí com tanto tormento e esmero.

Então ela ainda era humana! Ainda se arrastava para o trabalho, e dele de volta à cama fria. Então ela ainda tinha contas (e não só viagens pelo mundo) a pagar. Então ela ainda tinha olhos de dor, e não só bravos amores e sorrisos a tecer. Então ela ainda era humana…

A chuva fina que não a tocava – mas deslizava pelo seu guarda-chuva – umedecia meus cabelos e parecia encharcar, afogar meus pensamentos. Um dilúvio os arrasava e os lavava com a mesma violência. Um terremoto punha fim àquele odioso e mal ajambrado pedestal. Ela estava caindo, ela despencava. Ela afinal podia tocar o solo, ela era mortal uma vez mais.

Que houve com a minha amazona? Com a rainha inconteste do meu Olimpo particular? Por que carrega esse olhar débil, meio morto, por que abre espaço entre zumbis engravatados? Que houve com a fortaleza inalcançável da qual ela parecia me fitar com tanta altivez? Por que a nobreza caminha agora entre a plebe, por que eu a fito sem ter minhas retinas queimadas pela sua luz?

Eu cria, todo esse tempo, tê-la pintado como Da Vinci, mas a desenhei como Dalí. E agora ela derrete. A cada som oco do seu salto, a cada batida no chão cinza, ela derrete. Seu mito se desfia, sua lenda perde força, seu folclore se apaga. A divindade tem suas asas cortadas, e é varrida por um mar de realidade fria, de crueza metropolitana.

Ao fim do meu eterno momento, dos segundos infindos de epifania, ela some entre a multidão da qual agora faz parte. Num baque, anos de ilusão escorrem pelo bueiro da minha mente, e descem viscosos pela minha espinha, me dando o calafrio mais hediondo que já provei. Então ela existe! Ela existe em carne e ossos cansados, ela é tangível, palpável (ainda que não pelas minhas mãos, que afastaria de si, enojada).

O mesmo vento gelado que demoliu meu castelo de cartas me desperta. Atrapalho as pessoas, que bufam impacientemente ao se desviar de mim. Em São Paulo não há tempo para o (des)amor. Uno-me à manada, sigo meu rumo, mas não sem uma impertinente melancolia, um desalento irritante de quem acaba de perder algo que jamais irá recuperar. Sinto-me como Gatsby: perdi minha luz verde. Ela enfim se apagou.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s