Não sou Ivan

Não havia melhor lugar para terminar a leitura de “A Morte de Ivan Ilitch” que o metrô abarrotado das 8 horas da manhã. Ergui lentamente a cabeça (a única parte do corpo que me era possível mover) e fitei com torpor os rostos em transe, mergulhados em seus universos portáteis particulares. Pensei: vamos todos morrer como Ivan.

Leon Tolstói nos conta a história de Ilitch desde seus ternos dias, passando pela viçosa juventude e chegando à sólida maturidade. Rapaz brilhante, ascende com ambição e malícia em sua carreira jurídica. Chega ao topo como juiz, e de lá fita a si mesmo com orgulho – e os demais com altivez.

A vida regrada e metódica, a absoluta entrega ao tribunal, os soldos cada vez mais gordos, o luxo e luxúria em cada centímetro do elegante apartamento: Ivan percorre seus anos lutando para ter e ser mais, para sentir os sabores do dinheiro e do poder. A sua dedicação, contudo, se atém ao trabalho. Pois é: assim como ele, quase eu ia me esquecendo que há uma família na história.

Mulher e filhos são, maior parte do tempo, berço de chateação e estresse para Ivan. A felicidade, ele a encontra no escritório. O casamento escoa, assim como a infância dos garotos, e ele nada vê, a tudo foge, de tudo se abstém. Até o dia em que passa a depender daqueles que vinha há tanto ignorando.

Ivan cai de cama, gravemente enfermo, e o que agora se esvai é sua saúde. Nenhum médico pode salvá-lo, e o leito vira sua morada permanente. A morte o espreita por detrás de suas cortinas de seda e colunas de mármore de Carrara. E, ironia: o incômodo da casa passa a ser ele. Mas, do fiapo de vida que lhe resta, moribundo, ele tece a mais grave das conclusões: nada do que fizera até ali teve sentido. Na doença, todo seu espólio lhe é mais que inútil: é ofensivo. Ivan morre. Com e como um nada.

De volta ao vagão, com outras dezenas de sardinhas como eu, me esqueço por ora do desconforto: sinto-me apertado mesmo é no coração. Pergunto-me com insistência: “O que tenho feito desta vida? Com que propósito? O que deixarei aos demais além de custos fúnebres?”. E olho em volta, encaro meus companheiros de contêiner: “E você, garota? E o senhor? Para aonde se arrastam a esta hora? Em que multinacional vão definhar por mais 8 horas hoje?”.

Tomadas as devidas proporções, todos nós já fomos o Ivan moribundo um dia. Naquelas ocasiões em que, de tão doentes, nada nos apetece, nenhuma conta corrente cheia de zeros compensaria nosso corpo vazio de ânimo. De fato: a saúde da carne é sempre primeira. Sem ela, mente alguma pode ser sã.

Sim, já fui o Ivan em morte. Serei ainda toda vez que cair de cama. É nosso, é do homem. O que não mais posso admitir é ser Ivan em vida. Minha vitalidade não deve ser apenas garimpeira de bens materiais.

Não sou Ivan. Não serei Ivan. Começo hoje meu próprio exorcismo.

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