A sentença

O coração inchado esmaga-lhe o peito, e bombeia, desesperado, golfadas de sangue que inflam suas artérias, levando o oxigênio que ele queima quase que instantaneamente a cada passada. O aperto na garganta dificulta ainda mais a respiração já entrecortada e ofegante.

Sente as pernas arderem, queimarem. É como se massageassem seus músculos com um ferro de passar. As pupilas estão dilatadas, a boca escancarada busca todo o ar possível, o suor escorre quente pelas têmporas.

A noite é fria, e o peito desnudo está mais vermelho do que negro – não se sabe se é o vento gelado, que fere e corta a pele, ou se é o esforço, ininterrupto há um quarto de hora.

Conhece cada palmo da vila. Suas vielas escuras e estreitas são para ele como largos e iluminados corredores. E ele os atravessa com uma velocidade quase inumana, só mesmo explicada pelo combustível do medo, da adrenalina que inunda toda presa que sente se aproximar seu predador.

Atrás de si ele ouve, como rugidos, o ronco das motos, e, como urros, os gritos desconexos – que não se decidem entre insultá-lo e mandá-lo parar. Lâmpadas amarelas se acendem em cada barraco, mas ninguém ousa espiar o desfecho já conhecido e inexorável que está por vir.

A exaustão não é uma opção, mas já se apresenta como fim próximo. Ele todo é só instinto, só pavor, animal caçado. Mas uma abrupta lucidez o ilumina por um instante: o córrego. Um mergulho no esgoto é o preço da liberdade. É preciso ir até onde as motos não descem e os porcos não pisam.

Decidido, muda de rota e quebra à esquerda. Só mais 100 metros. O corpo está à beira de um colapso, será difícil dar uma braçada que seja, mas são só mais 100 metros.

Então, uma luz vermelha intermitente refletida no fim do muro o avisa de que é o fim. O brilho da Taurus é a última coisa que suas pupilas dilatadas veem. Segue-se um estampido seco. Dois. Três. Cinco. Oito.

O gosto ferruginoso de sangue se mistura ao de cloriformes fecais. Engole grandes goles da água insalubre na qual planejava pular. Em seu último resquício de consciência, reza baixinho para morrer afogado.

Pôde ainda sentir um toque gelado de metal na mão direita, na qual cuidadosamente acomodavam uma arma – talvez a mesma cujos projéteis há pouco rasgaram seus pulmões e rins. Depois, tudo virou noite.

Ao contrário dos filmes, ele não teve tempo de recordar a curta infância, logo ceifada pelo trabalho forçado. Não teve chance de se lembrar de seus olhos grandes, da mão pequenina, da pele macia, dos dias salgados e preguiçosos que passava ao mar. Sentimentos não entram para as estatísticas, assim como estatísticas não aparecem nos jornais.

Morreu sem nome e sem história. Julgado e condenado por ser preto e pobre. Afinal, no bolso estava o motivo da sumária execução: dois cigarros de maconha, que não levam bacana nenhum para o caixão.

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