O êxito da benevolência

Sempre que olho para trás, me bate uma profunda gratidão pelo Facebook ter demorado um pouco para engatar por aqui, por eu ter passado minha adolescência praticamente inteira no Orkut e em comunicadores instantâneos hoje falidos. E digo isso não porque ultimamente temos ignorado seres humanos para nos relacionarmos com smartphones. Não é disso que falo. Sou grato porque eu certamente (e ênfase no “certamente”) seria mais um “bolsomito”.

Ah, e como seria! Eu idolatraria figurinhas carimbadíssimas do nosso vexame nacional de cada dia. Levaria na carteira fotos 3×4 de Feliciano e Cunha, me masturbaria para Sheherazade, fecharia o braço com tatuagens das mais variadas com o numeral 45. Não é preciso nem dizer que contaria os dias para os 16 anos, ansioso para colar no carro de papai “Votei no Aécio, a culpa não é minha”.

É, aposto que esse enredo soa por demais fantasioso se você me conhece há poucas primaveras. Mas garanto sua precisão. Só me faltaram, na época, meios para propagar minha mediocridade. Afinal, Orkut não tinha timeline. MSN era face to face. Meu campo de atuação era mais físico que virtual – o de todos nós era. Fiz o que pude, me esforcei, mas sem o megafone da internet meus urros fascistas estavam mais para sussurros.

Mas, afinal, o que aconteceu com aquele pequeno Bolsonarinho? Como e por que eu deixei de abrir minha boca apenas para deixar escorrer fezes? A que devo a minha evolução de projeto de Führer para alguém de caráter minimamente decente? Bom, não é só a que, mas a quem. Fui salvo, essa que é a verdade. Não uma, não duas, mas várias mãos me foram estendidas para que eu emergisse do lodo de ignorância no qual eu chafurdava.

Decerto que também tenho minha parcela de crédito nesse processo. Não desmereço minhas longas horas de leitura. Todavia, mesmo elas só foram possíveis porque tive quem as indicasse, porque tive quem pacientemente ouviu o chorume que eu tinha a dizer e retrucou com mais tolerância que ironia, com mais calma que humilhação. Apostaram em mim. Investiram num Thyago menos babaca a longo prazo. E bom… modéstia de lado, creio que deu certo.

A essa altura, já está claro aonde quero chegar, e por isso me adianto: evidente que é MUITO mais fácil falar que fazer. Óbvio que é preciso um coração como o do rapaz de Nazaré para responder ódio com resiliência. Eu mesmo não pratico o que aqui prego, salvo raríssimas exceções. Quando nos deparamos com discursos virulentos de homofobia, racismo, elitismo e machismo, é quase impossível manter o sangue de barata e não rebater no mesmo (baixo) nível. Mas precisamos praticar.

Ora, ao darmos de cara com um “Foi estuprada porque pediu”, qual a primeira reação? Colocar essa pobre criatura que comentou lá embaixo, geralmente por meio da melhor arma que existe para isso: o sarcasmo. Funciona? Efetivamente, o coitado costuma se calar logo, pois não dá conta de rebater respostas bem articuladas. Vazio de “argumentos” (entre infinitas aspas), ele se vai, mas se vai rindo e achando que está certo. Ou seja: não, na prática não funciona.

Notei, nos últimos tempos, que todos perecemos do mesmo mal dos “bolsomitos”: o de achar que o outro vai “abrir os olhos” com duas linhas de texto no Facebook. É isso. Ingenuamente, cremos que o fascista mais próximo de repente terá uma epifania ao ser confrontado numa rede social (e nos irritamos ainda mais por ver que ele não o faz). Somos imediatistas com aquilo que mais leva tempo: com a gênese da lucidez.

Infelizmente, a realidade é esta: ninguém tem surtos de bom senso. É coisa que se constrói, arduamente, por anos. Quando discutimos com esse tipo de gente, pensamos estar de frente com uma folha em branco, e queremos logo desenhar (até porque a maioria precisa mesmo que desenhemos). Mas a verdade é que ali há história. Distorcida? Sim, mas há.

Que educação essas pessoas receberam em casa e fora dela? Quem são e o que pensam seus pais, parentes, amigos, professores? Onde moram? O que leem, assistem e escutam? São pontos que voluntária ou involuntariamente ignoramos. São muralhas que pensamos poder derrubar com um sopro, mas que são feitas do mais rígido concreto, desde muito cedo preparado não com cimento e água, mas com medo e raiva.

No mais, admito que soa estranho pedir mais paciência depois de um texto carregado de ironias e no qual há, inclusive, a ideia de “nós e eles”. Entretanto, o tom do que escrevi acima só prova o que já confessei de início: é muito, mas muito difícil não devolver selvageria com brutalidade. Mas devemos tentar. Claro que não dá para “adotar” o primeiro hater que brotar pela frente (sim, o verbo mais apropriado é “brotar”). Ele jamais dará ouvidos. Lembremos: o grau de resistência do “alvo” será sempre inversamente proporcional ao de nossa intimidade com ele. Ou seja: quanto mais próximos formos daqueles que queremos arrebatar, mais fácil será a conversão.

É, o “inimigo” realmente mora ao lado. Cabe aos mais elevados, contudo, não tomar em mãos as mesmas armas que os bárbaros. Serenidade não é fraqueza. É, senão, o primeiro passo para a tenacidade. Já a cólera se dissipa com a mesma facilidade com que se incendeia. Não podemos nos apoiar nela: é instável, volátil demais. Sejamos os mais perspicazes. Quebremos o ciclo de violência. Afinal, há esperança. Enquanto o ódio não se transferir por placenta, há esperança.

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