1095 dias

1095 dias de humilhação, de desprezo, de comiseração. De baixeza, de olhar para cima, de remorso. Assim foi, todo esse tempo. Em todas as ocasiões, nada raras, em que você resolvia aparecer. E então, numa noite qualquer de um mês nada banal, você surgiu opaca. Mais que isso: pequena.

1095 dias do mesmo enredo. Mudavam os cenários, algumas personagens, uma fala ou outra? Sim, é verdade. Mas o roteiro era, em sua essência, inalterável, inexorável. Previsível. Você sempre altiva, bela, bem sucedida no jogo e no amor, uma rainha incólume. Eu, o eterno réu, envergonhado, sujo, perverso e pervertido, quebrado, rastejante. Assim foi, todo esse tempo.

1095 dias que se arrastaram, serpentearam. Que me rasgaram a alma, noite após noite. Cada manhã que nascia após um desses tormentos era a alvorada de um dia morto. Remoía aquelas cenas incessantemente, mesmo sabendo de seu caráter fantasioso. Fantasioso? Será? Há muito me pergunto se o inconsciente não é, na verdade, a mais lúcida das consciências.

1095 dias de pesar, de culpa, de ver sua sombra a cada fechar de olhos. Passei a ter pavor de me deitar. A vinda era certa. Sempre foi, desde o primeiro dia. E jamais houve respeito por nada nem ninguém. Você entrava sem bater, e por vezes até batia sem entrar. Estivesse eu onde estivesse, com quem fosse: a presença era presente. E o temor de gritar seu nome? De despertar em prantos, como inclusive já o fiz? Pavor, pavor de me deitar…

1095 dias, e eu já tinha então deixado perecer quaisquer esperanças de me livrar desse looping onírico. Até que meu subconsciente, talvez exaurido de tanto castigar a minha já abatida autoestima, decidiu enfim me conceder uma vitória. Tímida, breve, sutil, bastante confusa e quase incompreensível, mas uma vitória.

1095 dias, e afinal você não mais pairava tão alto, tão inalcançável. A bem da verdade, eu podia tocá-la. Mas não o quis. EU NÃO O QUIS! Então aconteceu: o princípio da cura. O epílogo de um novo tempo. Ria, não me importo. Ver sua imagem e nada sentir, mesmo que em sonho, divide minhas águas tanto quanto a sua partida o fez. Mas agora de forma bela, sublime, limpa.

1095 dias, e já caminho para os 30 sem ver seu rosto. Se um dia contasse essa boa nova àquele alquebrado Thyago, aquele dos dias depois de nossa queda, ele jamais creria em minhas palavras. Se eu contasse a ele que a liberdade galopa devagar, mas nunca interrompe seu trote, ele riria. Pois veja, garoto: ela chegou! Ou ao menos consigo vê-la no horizonte, e a cada dia distingo melhor seus traços.

1095 dias. Vejo agora que foi essa a minha sentença. Foi a minha condenação pelo hediondo erro que cometi. Sem advogado, mas cercado por um implacável júri, fui enviado à solitária da minha própria psique. E durante toda a pena, arranhei as paredes, me debati, gritei, cuspi, vomitei. Fiz de tudo para sair dali. Todos os dias, sem exceção.

Hoje eu faria diferente. Seria mais sereno, aguardaria com paciência. Mas assim que é: quando se é enclausurado dessa forma, ninguém te diz quando será o dia da soltura. Há uma certeza, contudo, cuja descoberta me custou tanto que jamais esquecerei: essa prisão não é perpétua.

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