Que medo senti

Quando criança, não nos entra na cabeça por que os adultos têm a estranha mania de guardar bem guardado tudo o que produzimos. Qualquer rabisco, qualquer escrito, qualquer homem de palito que nasce da absoluta falta do que fazer (ou de habilidade mesmo). No meu caso, nunca fui um entusiasta das artes plásticas. Logo cedo compreendi que não iria longe com cadernos de desenho. Foi quando tentei a sorte com folhas pautadas – que também não me trouxeram qualquer retorno até agora, mas ao menos não me sinto tão constrangido em espalhar por aí o produto desse hobby.

Bom, eis que um e-mail inesperado do meu irmão me fez compreender, afinal, a importância de se preservar tudo o que for possível quando se trata de produção infantil. Ele me enviou nada menos do que cinco textos, e eu desconhecia a existência de todos eles. Pelo que investiguei, todos datam da mesma época: 16 anos atrás, quando eu completava uma década de vida. Li cada arquivo como se fosse a primeira vez, como se não fossem minhas aquelas palavras. E um cisco caiu no meu olho. Que saudade!

Abaixo, deixo uma dessas “obras”, cujo título é o mesmo deste post. Talvez a que eu mais tenha gostado (e, provavelmente, a que mais se identifica com meu momento atual). Favor relevar não só eventuais erros (mantenho sempre a redação original) mas também quaisquer incoerências. Pense numa criança de 10 anos descrevendo um momento de terror. Foi isto que saiu:

Pensei nunca mais sair daquele lugar
Pensei nunca mais conseguir falar
Dizer o que penso
Ah, meu Deus!
Sairei incólume?
Não creio nisso
Não neste momento
Não nesta situação
Nunca mais verei aqueles que amo?
Aqui estou com medo e agonia
Rogo para que eu saia deste lugar
Aterrorizante e negro
Estou encolhido com medo de tudo e todos
Pensando que poderia ter algo aqui
Justo aqui…
Aqui, onde nem os demônios ficariam
Como parei aqui?
Tudo começa a ficar estranho
E penso que estou no inferno
Mas o inferno não tem fogo?
Talvez não…
Talvez tudo aquilo que me ensinaram sobre o inferno fosse mentira
Ou até mesmo algo para impressionar
As crianças pensam que queimariam
Mas no momento sinto mais frio do que qualquer outra coisa
Sinto-me preso ao chão
Talvez seja a gravidade
Ou mais provavelmente o meu medo incontrolável
Meu medo de me deparar com outro alguém perdido aqui
Ainda duvido que sairei daqui
Sinto pitadas de neve no nariz
E mesmo assim suo frio
Ainda me recordo de estar jogando futebol
Ainda me recordo de ter brigado com mamãe
Ainda me lembro da realidade
Será um sonho?
Nunca tive tanto medo
Nem quando papai vinha me bater
Nem quando levara uma surra dos moleques da rua
Nem quando quase morri num assalto
Incrivelmente, algo me diz que nada irá acontecer
Mas aí me lembro que sou criança
Ainda tenho medo do bicho debaixo da cama
Pelo menos aqui ninguém rirá da minha cara
Nem os meus amigos da quarta série
Nem meu irmão mais velho
Por isso não tenho mais vergonha
Pelo menos um lado bom nisso tudo
Isso nem pode ser considerado um lado bom
Eu não tinha vergonha no meu quarto
E eu posso lhe garantir que meu quarto era menos assustador
De repente o frio some
Agora estou fritando
Mas o medo aumenta
Com a possibilidade de isso ser mesmo o inferno
Já ouviu a expressão ”Queime nos mármores do inferno”?
Mas onde estou sentado é muito quente para ser mármore
Tudo agora é quente, quente, quente…
Não sei quando sairei daqui
Mas para o caso de não sair
Taquei a mão no bolso e liguei a lanterna
Até o momento esquecida
Iluminei a folha de papel e a caneta
E escrevo agora esta carta
Para simplesmente lhes falar
Que todos os medos podem ser superados
Mas não sei se superarei este
Nem sei o que estou tentando superar
Mas, confiante posso afirmar:
Tudo pode e deve ser superado
Mas talvez isso não se aplique a mim neste momento.

Escrito em 2000. Para ver mais textos produzidos antes da criação deste blog, use a tag “arquivo”.

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2 comentários sobre “Que medo senti

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