Détresse d’Un Autre Été

Nunca assisti àquele filme que tu tanto gostavas, de uma tal Amélie. Naqueles dias eu era menino, tinha então uma consciência tão miúda quanto minha disposição. Minh’alma, frágil, só se excitava com o que era fácil.

Então tu te foste. E eu, mergulhado pela primeira vez em uma dor para a qual farmácia alguma tem remédio, para a qual dinheiro algum pode comprar médico, me refugiei nas mãos de Yann Tiersen – só para descobrir que a vida é de uma ironia tão sádica quanto vil.

É um homem de dedos tristes, não é? Cada nota se lamenta e se arrasta para dentro de nós, e tudo então se torna belo e perene. Ouvi-lo é como vestir óculos para curar nossa indelicadeza, nossa aridez, nossa rudeza. É uma luva de pelica a derrubar grosseiras muradas de concreto.

E ah!, menina, como eu queria ter desmoronado antes! Pois agora a música me descortina cenas de um show que já terminou, de um filme cujos atores já não se dão. Livre do glaucoma da puerícia, fito o passado com novos olhos e vejo encanto onde outrora pensava haver somente frivolidade.

Cada manhã preguiçosa, de raios de sol entrecortados a invadir o quarto, cada silêncio que antecedia o beijo roubado, cada riso sincero que nascia do seio da intimidade, cada sono leve depois de noite incendiada: tudo soa tão sublime, tudo é agora tão mais pulsante, ardente, febril!

Que fazia eu quando éramos dois? Dormia? Por que tudo é tão belo quando já não posso mais tocar-te o rosto? Por que tu ficaste gravada em tão excelsas linhas, em tão irretocável desenho? Por que me é tão difícil meter-te imperfeições, por que insisto em fazer de ti imagem tão impecável?

Vai ver é assim que tem de ser: nos resguardamos de nós mesmos, fazemos de nossas lembranças porto seguro – ainda que para tanto tenhamos de deformá-las, desfigurá-las. O mal já nos circunda todo tempo, por que haveríamos de deixá-lo fazer morada justo aqui dentro? Quem poderá nos condenar por tão pequena traição, por tão ínf(t)ima ilusão?

Sigo tendo como companhia o dom desse homem que sabe minar corações enrijecidos (solidificados pelo amor ou pela dor). E quanto à garota francesa? Bom, temo que sua graça me permanecerá desconhecida. Pelo menos até que eu tenha de volta a tua.

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