Doña Ruth

Logo que entrei no ônibus, pensei: “O ar-condicionado é mesmo a melhor invenção do homem. Talvez só a cura do câncer possa tirá-lo do pódio. Talvez”. Num país em que no inverno faz 25 graus, é de se imaginar que haja refrigeração em cada cm², certo? Correto, a não ser que estejamos falando de uma ilha caribenha parada no tempo.

Havana, Cuba, 35 graus com sensação de 50. E ainda era primavera. Depois de uma semana respirando revolução e tabaco (dias que descreverei em outra oportunidade), resolvi que queria conhecer outra face da ilha: uma sem tantos europeus de camisas floridas e chapéus panamá. Embarquei, portanto, para Trinidad.

São bem umas 6 horas de estrada até o pequenino vilarejo entalhado no meio de uma paisagem inóspita e aparentemente intocada. Uma das primeiras cidades de Cuba a ser fundada, Trinidad lembra absurdamente a nossa Paraty. Só que mais quente. Muito mais quente. Sério: QUENTE.

Em que pese as belezas da arquitetura, culinária, cultura, música e praias, o que mais me chamou atenção em Trinidad foi a dona Ruth. Assim como fizera em Havana, decidi me hospedar na casa de uma família cubana, negócio muito comum por lá. Em Cuba não existe albergue. É 8 ou 80: ou a hospitalidade dos nativos ou a pompa dos grandes e luxuosos hotéis.

Nem precisei bater à porta da bem cuidada casa cor de rosa. Ruth já me esperava e se precipitou a carregar minha mala, oferta que recusei enfática e gentilmente. Seus olhos e pele claros não me impressionaram. Acostumei-me, na semana que passara em Havana, a ver por todo lado a bonita mistura étnica que a dolorosa colonização espanhola produziu.

O imóvel térreo não era grande, mas tampouco era apertado. Depois de conhecer meu quarto, que dispunha de um ar-condicionado escandaloso (porém funcional), seguimos para a área externa, que ostentava um modesto jardim e charmosas cadeiras brancas de balanço. O sol já se despedia. A tarde ia morrendo e a luz dourada deitava-se sobre as folhas, que balançavam discretamente com um vento que eu torcia para ser mais vigoroso.

Sentamo-nos. Logo fiz, por hábito, a estúpida pergunta sobre poder ou não acender um cigarro. Em Cuba se fuma em todo lugar, e esse tipo de questionamento é visto com estranheza (ao menos por quem não lida com turistas com frequência). Como resposta à minha dúvida, Ruth acendeu ela mesma seu tabaco, e com um sorriso tão cortês quanto amarelado me ofertou “una limonada”. Com pingos de suor descendo pelas têmporas e outros tantos deslizando rumo ao meu cóccix, aceitei sem delongas.

Enquanto ela cortava os limões, começou a me indagar sobre coisas da vida. E ali se iniciava uma gostosa conversa que não teria fim, ainda que eu tenha feito questão de passar algumas horas com Ruth todos os dias em que tive a sorte de gozar de sua hospitalidade. Durante toda a estadia eu fui o único hóspede, o que tornou a já simpática senhora ainda mais predisposta a me mimar incansavelmente.

Como é sabido entre os que me conhecem, eu tenho um espanhol bastante cafajeste. Apesar de ter a minha pronúncia sempre elogiada, meu vocabulário é limitadíssimo e, claro, apelo para improvisos constrangedores e me rendo ao “portunhol”. Curiosamente, contudo, cubanos, argentinos e espanhóis (países que conheço) nunca se mostraram incomodados e compreendem perfeitamente esse “dialeto”. E com Ruth não foi diferente. Se tinha alguém ali que eventualmente se perdia no meio do papo, esse alguém era eu.

Falamos sobre tudo e todos. Ruth agora conhece cada intriga familiar minha, e eu sei de cada perrengue que ela enfrentou com o marido, que até agora não havia citado porque (assim como neste texto) ele só se apresentou bem depois de sua esposa. Conversei muito pouco com Mario. Não porque ele fosse de nenhuma maneira antipático, mas porque andava sempre ocupado com afazeres dentro e fora da casa. Digamos que Mario administrava os bens materiais. Ruth, os humanos.

Vi, ouvi e vivi muita coisa bonita e triste em meus dias de Cuba. Nem escrevendo um livro eu daria conta de exprimir fielmente tudo que senti naquela terra de sangue e salsa, de dor e drinks, de agonia e amor. E é verdade que retornei com ainda mais perguntas do que as que eu tencionava responder quando embarquei. Mas há, sim, uma certeza que eu trouxe da ilha: a de que ela abriga um povo tão obstinado quanto afável, tão intrépido quanto delicado. E se ficaram arrependimentos, o maior deles é não ter um registro meu com Ruth. Afinal, os cartões-postais estão no Google Imagens. Ruth e seu Mario? Só em minha memória, que é menos fotográfica do que eu gostaria.

Parados à mesma porta à qual ela me esperara 4 dias antes, nós agora aguardávamos o táxi que me levaria de volta à rodoviária – e de lá para Havana. E a tarde caía, como que de propósito, da mesma maneira que fizera no dia de minha chegada. O carro encostou e Ruth mais uma vez se apressou a pegar minha mala, e eu mais uma vez fui mais rápido e a agarrei eu mesmo. Mas no meio de toda essa “repetição”, algo foi diferente: nosso tímido cumprimento de mãos do primeiro encontro evoluiu para um longo abraço e votos impossíveis de nos revermos um dia.

Entrei no carro, e 24 horas depois entraria no avião de volta à selva de concreto e aço. Daqui algumas semanas, fará um ano que deixei Cuba e Ruth para trás. Bom, pelo menos fisicamente. Pois a cada fim de tarde, a cada limonada e a cada cigarro, me sinto de volta àquela cadeira branca de balanço falando sobre coisas da vida e desejando que o vento sopre mais vigoroso – para levar embora a desesperança junto da nossa fumaça.

ruth

O jardim e as cadeiras onde Ruth e eu passávamos as tardes a pitar

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Uma das principais avenidas da metrópole de Trinidad

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