A tecelã de sorrisos

Ela se aproximou sem muita cautela. Trombou em uma cadeira no caminho, pediu desculpas ao casal, puxou o banco à minha direita – que arranhou o piso com um som aflitivo – e teve dificuldade para se sentar. A banqueta alta a obrigou a arrastar uma parte da bunda primeiro para depois puxar a outra banda, como quem sobe a uma mureta. O cheiro de Marlboro vermelho recém consumido me incomodou, e eu comecei a pensar no quão hipócrita um fumante pode ser.

– Ainda nesse uísque? – ela abaixou a cabeça e a inclinou para me fitar, já que eu não levantara os olhos do copo.
– É o terceiro – respondi mecanicanente, ainda sem encará-la.
– Você é muito mole! – ergueu a cabeça e esticou a mão de unhas vermelhas – Moço, me vê mais uma Budzinha?
– Tem duas coisas que me deixam muito mal neste mundo: o holocausto e você pedindo cerveja.
– Ai, Thyago! Tira essa nuvenzinha negra de cima da cabeça. Os raios ainda vão queimar seus cabelos – e passou a mão neles como se faz a uma criança, num misto de cafuné e cascudo. Olha só, arranquei um sorriso do Sr. Carranca!
– Para, vai – resmunguei, tentando conter o riso. Você sabe que venho passando por tempos difíceis.
– Tudo o que eu sei é que você não está mais no escritório e que cara feia aqui é sede. Moço – tocou o braço do garçom que passava –, traz outro Jack para este menino que veio do velório!
– É Jameson. E cancela, “moço”. Já tomei demais.

O rapaz, indeciso, ficou ainda mais alguns segundos parado esperando outra mudança de ordem, mas enfim se foi quando ela me deu um sonoro (porém indolor) tapa na perna:

– Você é chato, ranzinza, fedido e nem sei por que ainda insisto em você – cruzou os braços. E não adianta se cheirar, palhaço! – fez um esforço para não rir, mas desistiu.
– Você insiste porque nós só temos um ao outro.
– Não começa com sentimentalismo que você não vai estragar minha maquiagem. Não hoje!
– Vem cá – abri os braços.
– Tá, isso pode. Mas não aperta muito que meu peito tá inchado – disse, séria.
– Gosto da sua TPM porque esse é o único sintoma – ri.

Terminado o abraço, continuei:

– Você sabe que ninguém acredita que somos apenas amigos, né?
– É, eu sei – suspirou. Mas isso importa?
– Não, não importa – sorri. Moço, me vê uma… me vê uma Budzinha?

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2 comentários sobre “A tecelã de sorrisos

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