Maternidade

Por Daniele Costa Russo

Eu disse a uma amiga que não lembro como é ser adulta sem ser mãe, pois me tornei mãe muito jovem.

Basicamente, não tive um único ano de adulta a partir dos 20, quando fiquei grávida, que eu não me sentisse inundada de amor. Entorpecida de amor. Boca, membros, olhos formigando de amor.

Mas essa certeza e sensação são uma complexidade.

A maternidade me fez chorar de dor, raiva, exaustão, frustração, desespero, dúvida, solidão, por crise financeira, por juventude toda comprometida, por casa sem móveis, inverno sem bom casaco para trabalhar, sonhos variados adiados e cancelados. Por consciência gritando, me xingando, e por ver a sociedade me xingando também. Tanto. Por estar assustada, pensando em desistir, por não saber mais o que responder, por ficar doente, fraca, por ter medo de me apaixonar romanticamente e perder o foco na maternidade. Por trabalhar demais, por limpar demais, por ser tão doméstica e banal quando eu sentia vontade de ser mítica, esplendorosa. Por ter divergências internas de criação, superações próprias que me tornassem capaz e justa para ensinar. Por me punir, me demitir do meu próprio posto de mãe a cada madrugada em claro, desesperada. E me readmitir na manhã seguinte, péssima, sem esperança de ser uma pessoa melhor, mas ainda perseverante.

Não nascemos para ser mãe, peralá, isso é difícil demais para “nascer” querendo e sabendo ser. Não dá pra dizer que é natural. Não é natural parir nem erguer uma estrutura de vida inteira para um ser humano. É falhar muito e ainda se ver obrigada a sorrir feliz, assumindo a candura da maternidade que a sociedade ama enfiar nas nossas goelas de mulher.

Já fui muito triste por ser mãe. Tivemos, eu e eles, sérios problemas na vida, abalos eternos. Ser mãe pode ser muito solitário e desencadear todos os medos.

E por eu assumir tudo, tudo mesmo, meus filhos já estão bem melhor preparados para um dia, se quiserem, serem pais. Mais do que eu poderia ter estado, sem dúvida, antes de virar mãe.

Eu os amo de maneira inefável. Mas admito que amar tanto lidando com muitas adversidades é um puta desafio mental e físico. Ser mãe é desmoronar, virar entulho, e se refazer com aqueles restos. Apenas evite julgar.

Para ver mais textos de outras pessoas que colaboraram com este blog, use a tag “contribuição”.

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