Insônia

Vez ou outra que não consigo dormir, começo a rezar o Pai Nosso. Repetidamente. Fato curioso vindo de um ateu, eu sei. Mas me acalma de alguma forma. Vai ver é pela simples repetição de palavras, que culmina em exaustão mental. Vai ver é pela criação protestante, os longos anos de cultos dominicais. Pois hoje é domingo, mas a presença que tenho aqui comigo não é das mais divinas.

Acendo um cigarro na janela. Vejo a chuva cair com violência e quebrar ramos das plantas que ela deveria nutrir. Orações decoradas não vão me ajudar hoje. A noite será insone. Confesso que nunca entendi a expressão “em claro”. Se tem algo que me falta junto do sono é sempre a clareza. E é por isso que a insônia me irrita tanto: porque não fode nem sai de cima. Não deixa descansar nem refletir. Horas de vida desperdiçadas.

Ler é impossível. As letras se embaralham, perdem o sentido, o livro todo me parece escrito em lorem ipsum. Assistir a qualquer seriado? Inviável. Jogar? Impraticável. Desisto do segundo cigarro. Deito, passo a fitar o teto e penso com um riso que deveria ter colado nele aqueles adesivos fluorescentes. Ao menos seria uma distração.

Consigo finalmente me concentrar em algo. Elas estão mais rápidas do que de costume. Tento contá-las por 10 segundos, para depois multiplicar por 6 e descobrir quantas são em 1 minuto. Mas nunca fui bom em exatas. Deixo pra lá. São muitas, é apenas isso que preciso saber. Penso com uma seriedade cômica que as batidas realmente merecem esse nome. Taí algo que ninguém deveria ter aos 26: arritmia.

Sou um cara orgulhoso. Odeio admitir qualquer coisa, inclusive pra mim mesmo. Mas preciso fazê-lo agora: a insônia de hoje não tem qualquer origem fisiológica. É emocional.

Como eu temia, não estou dando conta de tantos problemas simultâneos. Ok, na verdade são três, mas todos cabeludos. E eles calharam de surgir na mesma semana, os putos. Ou seja: estão todos frescos, brutos, pouquíssimo lapidados. E não consigo definir qual o menos pior para colocá-lo de lado e tentar dormir com o barulho dos outros dois.

Resignado, decido fumar aquele segundo cigarro. Se o coração não se cansa, talvez o pulmão o faça. Vou deixar de lado este papel e caneta, o pulso já dói tanto quanto os olhos que estou esfregando de minuto em minuto. Amanhã (ou hoje) o dia será tão longo quanto o tempo que levarei para desarmar essas três bombas.

Acho que vou tentar aquele calmante da caixa de remédios do meu pai. Se ele não me derrubar, ao menos deve colocar minha cabeça em ordem. Quem sabe assim não consigo enfim passar da parte do “pão nosso de cada dia”?

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