A voz de lá

– E você acha que a comunidade vai melhorar ou piorar nos próximos 2 anos?
– Melhorar que jeito, meu filho? Este buraco aqui foi esquecido até por Deus…

27 de fevereiro, Carapicuíba, São Paulo

O dia começou cedo, e a noite anterior acabara tarde. Ainda não eram 6 horas quando aumentaram absurdamente o volume de “Viva La Vida” – e isso talvez explique por que passei a odiar Coldplay desde então. Com uma animação que não é característica de seres humanos antes das 10h, dois rapazes batiam palmas e bradavam palavras de encorajamento para arrancar 50 jovens mal humorados de seus sacos de dormir.

Enquanto buscava minha escova, com a coluna e o ânimo moídos, eu esfregava os olhos e pensava (sincera e silenciosamente): “O que estou fazendo aqui em pleno sábado?”. Já havia então 6 meses que eu começara a trabalhar no TETO, mas nunca tinha colocado os pés no seu real campo de atuação: as favelas mais precárias do país. Esqueça Heliópolis ou Paraisópolis: falo de lugares em que alvenaria é luxo e a presença do Estado só existe vestindo farda. Quando existe.

Depois de um semestre de planilhas, relatórios, reuniões e apresentações, decidi que era hora de conhecer quem eu de fato estava tentando ajudar com macros no Excel. Embarquei, portanto, num evento que precede a construção de casas de emergência (atividade pela qual a ONG é majoritariamente conhecida).

Munidos de extensas enquetes socioeconômicas que deveríamos aplicar aos moradores, deixamos o prédio emprestado por uma associação rumo à comunidade. O objetivo, ambicioso, era cobrir todos os 160 barracos, ouvir, enfim, todas as famílias. Para tanto, seriam necessários dois dias de entrevistas, e durante a caminhada eu já temia o Chris Martin da manhã seguinte.

Chegamos. Separamo-nos em grupos de oito pessoas, e depois em duplas. Minha parceira, que devia contar no máximo uns 20 anos, olhava com espanto seu arredor. E não sem razão. Quando você vê crianças no meio do lixo perseguindo ratos como se fossem cães de estimação, você estanca. Choca.

Ambos éramos iniciantes, e por isso devíamos conduzir as primeiras duas ou três conversas juntos antes de nos dividirmos. Possuindo dezenas de perguntas e regras para serem preenchidas, as enquetes são quimeras difíceis de domar a princípio. Então batemos à primeira porta. Daquele momento em diante, minha cabeça seria virada do avesso irremediavelmente.

Da renda familiar a “algum caso de diarreia no último mês?”. Do grau de escolaridade a “o que você pensa da polícia?”: não é exagero dizer que o trabalho parece com o do IBGE, mas com sentimento, com envolvimento. Cada visita rende ao menos uma hora. Isso, claro, se você gentilmente recusar as infalíveis ofertas de um bom papo e um café passado na hora (o qual, confesso, aceitei em mais de uma ocasião).

Patricia, Solange, Rosângela, Fabiano. Nomes que hoje trazem à memória mais histórias do que rostos. E cada um deles requereria um livro para fazer justiça à sua caminhada. Talvez um dia eu me desafie a tornar essa ideia palpável (e folheável), mas por ora tenho apenas esta lauda aqui para sintetizar dois dias de “autolobotomia”. Cada questionário terminado, uma pedrada. Uns minutos para respirar. E tentar assimilar. E seguir para a próxima casa.

Já era domingo – e eu sobrevivera à segunda dose de Coldplay – quando pedi licença para entrar na última casa e conduzir a derradeira visita daquele final de semana. “Se acomode aí, meu filho! E ligue não: o barraco é miudinho, mas é que nem coração de mãe”. Dona Maria trouxe do Norte o que é mais característico da região: o sotaque e a simpatia.

Maria teve uma longa jornada trançada por dor, por fuga – da miséria, da fome, da desesperança. Um filme cujo roteiro eu já escutara uma dezena de vezes nas últimas 48 horas, mas que não deixava de me partir o peito. Mas, se a história parecia familiar, o pragmatismo e a sinceridade de sua dona não o eram.

Dentre todas as perguntas, a que mais me incomodava fazer é a que abre este texto. E logo após a resposta contundente de Maria, o entrevistado fui eu: “Mas vocês vão mesmo voltar aqui para fazer minha casinha ou vai ficar só nessa papelada aí?”. Não era um questionamento inédito, ao que disparei o discurso institucional: “Bom, esta é uma primeira etapa para entendermos qual o cenário socioeconô…” – então me detive.

Ela não ostentava um olhar de deboche ou impaciência, mas de cansaço. Percebi naquele instante que ela já ouvira tudo aquilo mais de uma vez, de outros jovens bem intencionados ou de políticos nem tanto assim. Suspirei. “Olha, vou ser sincero: eu não sei. Eu espero que voltemos, mas não é certo. A ONG não consegue ajudar todo mundo, infelizmente. Neste momento, outras comunidades estão recebendo a gente, e o resultado desses censos é que vai dizer quais famílias receberão as casas”.

Longe de deixar seu semblante ainda mais melancólico, minha resposta pareceu infundir luz em Maria. “Ai, meu filho, eu também espero! Seria tão bom parar de levar chuva na cabeça!”. Contive uma lágrima. “É, Dona Maria, e sabe do que mais? Eu estou ajudando o TETO exatamente para que ele não exista mais. Estou aqui para acabar com esta ONG!” – sorri. “Oxe! Como é que é isso aí?” – ela se assustou de verdade.

Dei uma risada. Me aprumei na cadeira e fitei Maria nos olhos: “Assim: quando o mundo melhorar e todo mundo tiver um lugar bom pra viver, ninguém mais vai precisar da nossa ajuda. Toda ONG trabalha pelo mesmo objetivo: que é não precisar mais existir um dia”. Sua preocupação se foi e ela fez uma cara de “taí, bem pensado!”. E continuou, com aquela alegria que eu, sem metade do seu sofrer, nunca tive: “Mas ó: pode vir aqui fazer meu barraco antes de vocês fecharem, viu?”. Rimos. E eu aceitei o café.

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