Que alegria senti

Depois do sombrio “Que medo senti”, pensei: por que não revelar um lado um pouco menos soturno daquele mesmo Thyago de 10 anos?  Falando como quem já se achava adulto o bastante para escrever sobre o passado, resolvi relatar um caso curioso que me acometera 5 anos antes. Ou seja, quando eu somava apenas 5 primaveras de vida. (Nota mental: sorte a minha – e de vocês – eu ter deixado toda essa prepotência lá na infância. Do jeito que a coisa ia, não duvido que eu me proporia a lançar uma autobiografia aos 15).

A inspiração para o texto abaixo veio do seguinte cenário: quando criança, eu frequentava a casa da minha tia todo final de semana, infalivelmente. E não, eu não batia cartão lá para tomar café preto, fumar Derby e jogar cartas com ela (seus passatempos prediletos até hoje). Meu alvo era seu filho, com quem eu criava as mais homéricas epopeias com nossos incontáveis bonecos. Todo domingo era um desafio me tirar de lá. Meus pais me buscavam já com ar de fadiga, tamanho era o trabalho que eu dava para abandonar meu parceiro de Comandos em Ação.

Era uma dessas noites de domingo. Voltando para casa, me recordo vivamente de estar contentíssimo – e sem motivação aparente. Eu literalmente queria explodir de tanta alegria. Mas me mantive calado enquanto meus pais, à frente, tratavam de assuntos chatos de adultos chatos. Apenas segui olhando pela janela e refletindo: “Minha vida é maneira demais. Como eu sou feliz!”. E bom, nunca mais tornei a sentir tal entusiasmo. Não com a mesma intensidade.

No mais, seguem minhas impressões sobre esse dia tão sublime na ótica de um menino de 10 anos. Como sempre, título e redação originais (relevem!).

Lá estava eu
Talvez nem tão atento
A minha mente girava por outros cantos
Me sentia estranhamente diferente
Estranhamente feliz
Querem saber?
Não era felicidade material
Não era o fato de eu estar ou ter algo no momento
Algo que ainda tento decifrar
Talvez fosse o fato de estar entre parentes
O fato de me sentir alguém
Mas sei que era mais que isso
Sempre soube
Essa felicidade
Que só eu sentia
Só eu partilhava daquilo que me tocava
Poucas e raras vezes conversei ou vi alguém sentir isso
Nem mesmo aqueles que amo
Nem mesmo eles ficaram sabendo disso
Bobeira?
Vergonha?
Não sei dizer ao certo o quê
Mas algo me impedia de confessar-me
Agora perdi essa “barreira”
Agora falo o que realmente me deixava feliz
Sabem por que as crianças riem à toa?
Nem eu
Talvez seja essa “felicidade” inexplicável e incompriensível
[sic]
Inquebrantável
Indestrutível ( … )
Se nem eu sei o que se passa
Quem haverá de desvendar?
Descobrir a origem?
O porquê?
Mas me contento sem saber
Só reconhecer sua existência e influência
Só saber da sua importância
E qual seria ela?
Por que temos que senti-la?
Ela nos muda?
Isso só o tempo responderá
Mas se não entender com o “tempo”
Quem te falará:
“Você sentiu a felicidade, você mudou”?
Você mesmo, você terá que descobrir se sentiu essa felicidade
E se ela te sentiu
Ou seja:
Se você já foi feliz ( … )

Escrito em 2000. Para ver mais textos produzidos antes da criação deste blog, use a tag “arquivo”.

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