Cabo de guerra

Dia desses me lembrei sem motivo de uma historinha boba, porém bastante ilustrativa de como o machismo é onipresente e machuca também os homens.

Quando eu contava uns 10 anos, se sucedeu a seguinte situação: no aquecimento para um treino de taekwondo (arte que eu largaria pouco tempo depois), o professor resolveu inovar. A brincadeira era fazer testes de força entre meninos e meninas, que incluíam cabo de guerra e imobilização.

Muito bem. A ideia, que já não soava promissora, tinha um agravante: eram colocadas sempre duas garotas contra um garoto. Não é preciso dizer a que pressão estava submetido este último. Se ele não arrastasse pelo chão as colegas do outro lado da corda, já era melhor ir procurando outro grupo com quem se sentar na sala.

Isso posto, falemos de Thyago. A última vez em que estive acima do peso foi quando usava fraldas, e é provável que a próxima seja também num cenário semelhante. Sempre tive o mesmo porte físico de louva-a-deus, e medir meu IMC constituía um entretenimento à parte pros meus amigos. É de se imaginar, portanto, que falhei miseravelmente no desafio acima, sendo eu o arrastado (e facilmente).

Apesar de o bullying que se seguiu ter sido menos traumático do que eu esperava, a partir daquele dia eu nunca mais me vi da mesma forma. Dezesseis anos correram, hoje tenho fios brancos até na barba, mas não raro me pego complexado com minha musculatura modesta. É só a menina pedir para pegá-la no colo que eu me sinto com 10 anos de novo, assustado, encurralado. Coloco a culpa na escoliose e mudo de assunto.

Fiz incursões a academias, claro, mas nunca insisti mais de duas semanas em pagar para sentir dor. Enquanto o personal falava de rosca direta, eu só pensava em estar em casa jogando RPG. Aquele não era eu, e eventualmente (depois de muito dinheiro e dorflex) eu percebi isso. E me conformei em ter uma ou outra calça 38.

Bom, hoje sei que gênero nada tem a ver com força física, e que esta, por sua vez, nada diz sobre uma pessoa ser melhor que outra. Mas convenhamos que adolescentes não costumam dispor dessa maturidade toda. Pois é: passei muito tempo ressentido não só comigo mesmo, mas com todas as meninas, que pareciam sempre sorrir com escárnio em minha direção.

“Tudo isso por uma descontração boba numa aula qualquer. Quit the drama!”, você deve estar pensando. Não quito, não. Pois é aí que reside o machismo: nessas miudezas, nessas aparentes brincadeiras indolores, em supostas anedotas inofensivas. É estrutural, está por todo lado e dói até nos opressores. Evidente que nem de perto na mesma proporção do que dói nas minas, mas dói.

Repensemos mais do que aquecimentos para crianças da quarta série. Coloquemos a molecada unida, sem distinção. Cabo de guerra só se for entre nós e o machismo – o único que merece ficar sozinho na outra ponta da corda.

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