Anos incr… incrivelmente difíceis

No mesmo espírito do velho dito popular do ovo e da galinha, cabe aqui perguntar sobre os últimos anos de Brasil: o que veio antes? A crise política ou a econômica? É difícil precisar, ainda mais quando não se é especialista em nenhum dos dois assuntos e quando vemos entendedores entendendo muito pouco do que está acontecendo. Mas vamos aos fatos que conhecemos: a economia começou a naufragar e o governo, de mãos atadas, pouco tem feito para evitar que esse navio afunde de vez – pois que o choque contra o iceberg já se deu, sendo contraproducente lamentar agora pelos danos já causados.

Desemprego, inflação, consumo e investimentos em queda livre e uma dívida pública galopante, impulsionada por um Estado que gasta mais do que arrecada. Junte-se a isso a intrigante solução encontrada por este último: joga mais impostos nas costas do povo, estrangulando o poder de compra e assim alimentando um círculo vicioso de degeneração da economia. E como sair desse buraco nos próximos anos, que parece apenas ficar mais e mais fundo? Reformas econômicas.

É fácil falar (e escrever), mas, como vemos diariamente na TV Câmara, está praticamente impossível de fazer. Antes do afastamento de Dilma, a situação era de fato gravíssima. Com Governo e Congresso em pé de guerra, nada que fugisse de disputas políticas era discutido ou votado. O país parou – e não por pouco tempo. A chegada de Temer parece ter aliviado um pouco os ânimos, injetado certa confiança no mercado (especialmente o externo) e dado, enfim, alguma esperança de retomada. Mas como será ela feita?

Vejamos: o ambiente político ainda está em polvorosa. O futuro de Dilma ainda está por ser decidido, e qualquer que seja o desfecho desse trâmite no Senado teremos mais tropa de choque nas ruas. Sabemos, portanto, que não haverá paz enquanto não houver novas eleições, que devem acontecer no seu curso natural, daqui longos 2 anos. Mas e até lá? Esperaremos que nasça alguma centelha de ordem e de concordância entre as alas governista e oposicionista para que o país possa andar? Que futuro nos aguarda com parlamentares que cospem uns nos outros?

O debate não é menor entre economistas, mas ao menos é mais respeitoso – e raramente há opiniões diametralmente opostas. O prognóstico para os próximos anos é de um pequeno crescimento, tímido, modesto mesmo, mas ainda assim um crescimento. O PIB brasileiro deve encerrar 2016 em queda, 2017 no “zero a zero” e de 2018 em diante dar seus primeiros passos rumo a uma retomada, chegando em 2020 mais estável e se não na média mundial, muito próximo dela. Para isso, contudo, teremos de ficar muito atentos à situação da América Latina (que conta com outros países em recessão) e de grandes players como China, da qual dependemos muito para manter em alta nossas exportações.

Do outro lado, temos uma pequena guerra civil tomando forma em Brasília, e que pode impactar direta e negativamente os passos descritos acima. O que esperar, portanto, do cenário político para os próximos 4 anos?

O que vemos atualmente é uma forte guinada liberal no país, que ganhou força devido às denúncias de corrupção que solaparam o maior partido de esquerda do país (se é que ainda se pode chamá-lo assim). Nessa onda, a oposição cresceu em progressão geométrica, e registramos, em 2014, a eleição presidencial mais acirrada da história. Mas o vento começa a virar. Operações como a Lava Jato parecem mesmo estar enxaguando e purgando a sujeira do Congresso, sem muita distinção. Delações explodem por todos os lados, e até o presidente interino está na mira da Procuradoria.

Assim como entre os economistas, também entre os cientistas políticos nascem discordâncias a respeito dos próximos passos da política brasileira. O que parece ser de consenso é o seguinte: nomes como Aécio Neves e Lula estão bastante encrencados para angariar votos em 2018. O PSDB, como maior partido de oposição, terá de renovar seus quadros, ao passo que o PT não tem muito para onde correr, sem nomes fortes o suficiente para substituir o ex-presidente e mentor de Dilma. Nesse meio, devem crescer personalidades novas e outras nem tanto, como Marina Silva e até mesmo caricaturas como Jair Bolsonaro.

Qualquer que seja a saída nas próximas eleições, uma coisa é certa e inexorável: é preciso encontrar de novo espaço para o diálogo e deixar o maniqueísmo de lado. A “luta do bem contra o mal” (seja lá quem for do primeiro ou do segundo grupo) não leva a discussão a lugar algum. E enquanto o foco da Câmara, cujo próprio presidente está pendurado, for olhar para o próprio umbigo, medidas importantes jamais entrarão em pauta – ou o farão tarde demais. O desafio é achar um governo de coalizão que possa “colar” de novo todos os cacos daquela que já foi uma casa mais sensata. Nunca unânime e muito menos honesta, mas menos dividida numa dicotomia entre o que parecem ser bolcheviques e mencheviques modernos.

O ano de 2020, portanto, deve chegar ainda com um ambiente político frágil e debilitado, mas menos explosivo que o atual, dando alguma solidez para a economia encontrar seu passo lento para a recuperação. O completo restabelecimento político e econômico do Brasil levará ainda muito tempo, com ainda outras crises em vista. De toda forma, o que parece nos rondar, neste momento, é uma aliviante e perigosa sensação de “o pior já passou”.

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