Amém

– Ei, grande! Tu aí! Psiu!

Eu caminhava apressado (como sempre) pelo Largo da Batata, era uma terça-feira fria, feia e atrasada, mas parei e me virei.

– Me diga aí uma passagem da Bíblia!

Sentado sobre um colchonete, pertences por todo lado, ele abriu um sorriso amarelo-avermelhado. Um filete de sangue escorria pelos seus dentes inferiores, e eu tive um calafrio.

Eu carregava um livro volumoso sob o braço, e imaginando que o homem o confundira com a sagrada escritura, argumentei que aquela não era a palavra de Deus.

– Eu sei, eu sei! Só me diga aí um verso da Bíblia.

Experimentei então aquele velho constrangimento de ser brasileiro e não ter uma religião ou um time de futebol. Obviamente ele esperava que eu recitasse algum versículo, e o único que me vinha à cabeça não parecia muito oportuno. Achei que pegaria mal soltar o do pastor que nada deixa faltar às suas ovelhas quando aquela à minha frente só dispunha de um cobertor e meia garrafa de aguardente.

– Hm… Esperança? – arrisquei.
– Esperança… É, garoto, esperança! É disso mesmo que a gente tá precisando!

Ele se levantou vagarosamente e me estendeu a mão, que apertei retribuindo seu sorriso ensanguentado. Ensaiei uma pergunta a esse respeito, mas antes que pudesse me decidir sobre a conveniência de questioná-lo, ele continuou:

– Mais uma coisa. Fala rapidinho aí: qual foi o dia mais feliz da tua vida?

Aí ele me pegou de jeito. A prova do versículo em nada se comparava a essa.

– Nossa… Assim de pronto não sei dizer – eu realmente me esforçava. Mas e o seu, qual foi?

– Pô, fácil: todo dia em que alguém dá uma atenção, que dá uma moral, sabe? Que não anda correndo apertando a mochila, com medo da gente.

Alguns segundos de silêncio se seguiram. Minha expressão dizia tudo que eu não era capaz de verbalizar. Um morder de lábios, um aceno com a cabeça, um suspiro. Ainda enquanto eu tentava formular uma resposta constituída de palavras, ele prosseguiu:

– Mas segue aí, chefe! Tu deve é tá atrasado, né? Desculpa tomar teu tempo. Deus te abençoe, viu?
– …amém.

Foi tudo quanto consegui dizer, mas foi o “amém” mais sincero que já respondi a esse voto.

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