Depois da Roosevelt

Confesso: nos dias depois da Roosevelt, fui tomado de assalto por um sentimento que eu há muito já havia expurgado. Exaustiva e involuntariamente, me flagrei fazendo os seguintes questionamentos: “Isso é tudo? Não vai esgotar as possibilidades? Não vai perseverar? Enfim a ‘chance’ se apresenta e você vai deixá-la escapar como areia pelos dedos? Te vejo tentando repetidas vezes terminar a droga de um jogo, mas ao primeiro revés numa empreitada de real importância você atira longe o controle?”.

É verdade que levei bastante tempo para entender a dialética da reciprocidade. A única fórmula para qualquer relação entre duas pessoas, o mútuo querer, é tão óbvia quanto nebulosa, e o caminho foi longo até que eu afinal a assimilasse. Essa curva de aprendizado explica tanto a minha insistência nos primeiros meses após o fim quanto o meu silêncio depois de infrutíferas investidas. Nada teve que ver com fadiga ou autoestima repentinamente restabelecida. O que houve é que por fim resolvi a equação, e sua resposta me foi reveladora: “Tal como uma bicicleta de dois assentos, isto aqui só vai adiante se ambos quiserem pedalar”. (SANTOS, Thyago, 2014)

Pois bem. Apesar de ter tudo isso muito bem assentado na minha cabeça desde então, dois latões e uns papos bolcheviques foram suficientes para uma recaída. O maldito “e se?” voltou a zunir na minha orelha, e o demoninho da inútil tenacidade recomeçou a entoar: “Dê mais uns jabs aí nessa ponta de faca! Vai que!”. E de repente me vi outra vez tentando desesperadamente summonar o anjinho da lucidez, para que ele novamente me gritasse: “Para quessa merda! A vida não é filme, não, rapá!”.

A boa notícia é que desta vez esse sensato querubim levou bem menos de 1 ano e meio para dar as caras. Mas não vou mentir: amadurecer parece ter sempre um retrogosto de conformismo. Há certa beleza mesmo na mais inócua esperança. Um quê de romantismo que a gente tira de Hollywood e acha que dá para replicar pulando malas em Congonhas. É, amigão, vai lá tentar furar o guichê da PF atrás da sua Rachel, vai. Boa sorte.

No fim, a vida nada mais é do que jogar fliperama com uma ficha só. E aceitar a ausência de continues não é sinal de fraqueza. É melhorar suas skills para não morrer de novo logo no primeiro chefão. O que me lembra uma entrevista em que perguntam a Neil deGrasse Tyson: “Se você pudesse viver para sempre, você o faria?”. Ao que ele replica: “Jamais! Que motivos eu teria para fazer qualquer coisa bem feita se pudesse tentá-la um sem número de vezes?”.

Agora que estou novamente em paz com meus arroubos de otimismo, talvez seja apropriado ressaltar que nada aqui tem a intenção de demover ninguém de decisão alguma. Até porque já aprendi outra liçãozinha introdutória do módulo Relacionamento 1: sentimento não é Waze, não dá para traçar rota. Se nossos caminhos estão em vias paralelas, como acredito que estejam, não adianta subir pela calçada para tentar que eles se cruzem. O negócio é dirigir olhando para frente, de forma a não passar reto pela próxima entrada, que você tolamente procurava no retrovisor.

São 5h44 da manhã, e não nego que eu preferiria estar passando frio na sua janela falando sobre especulação imobiliária do que digitando esta ladainha toda. Mas ó: todos os males vêm para o bem (em algum momento). Não me arrependo de depois ter suado um bocado para tirar todo aquele pelo da calça. João Bidu se orgulharia de mim agora, mas… sei lá, acho que “não era pra ser”, né?

Bom, chega de clichês esotéricos. Vamos encerrar com o que de fato importa: obrigado por me apresentar a acerolinha. Quem sabe um dia a gente ainda não compartilha outra? Por ora, seguirei atento para não forçar quadrados em triângulos, e essa dislexia geométrica há de passar. Até lá, torço para que você cuide tão bem de si quanto cuida daqueles que a cercam. Seu coração é grande. E é sempre em casa ampla que a angústia procura abrigo: para crescer de mansinho, sem ser notada. Encha os cômodos vazios com mais gatos.

Fica bem. Se for “pra ser”, a gente se vê em alguma rotatória por aí.

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