Depois da Augusta

Despertei com meu habitual e cronometrado encerramento das vias nasais. “Tenho de me livrar logo disso”, pensei, enquanto tateava o colchão em busca do frasco que me concederia mais algumas horas de sono. Uns dormem com o celular sob o travesseiro. Eu, com cloridrato de nafazolina.

Cambaleei até o banheiro. Pela claridade que invadia o quarto, soube que o dia já amanhecera. Torci para que o relógio ainda marcasse 6 e alguma coisa, mas sem de fato conferir meu prognóstico. É sempre melhor me deitar novamente sem saber que já são 7h58 – e que dali 2 minutos vou estremecer com aquele toque polifônico que passei a detestar mais que bife de fígado.

Deixei a água gelada escorrer pelo rosto e fingi não me assustar ao erguê-lo e fitá-lo ao espelho. “Bom, ao menos parece que você levou um soco de CADA lado. Sorte que olheiras vêm sempre em dupla”, confortei a mim mesmo. Irritado, arranquei um fio branco da barba desgrenhada, mas desisti de seguir com a mesma busca no não menos esgrouvinhado cabelo. Foi então que me espantei de verdade. Fiquei terrificado, completamente alarmado, realmente amedrontado: eu sorri. Sorri aberta e naturalmente. Em uma segunda-feira de manhã.

Fitei a janela. O céu tinha bem mais de 50 tons de cinza. Uma chuva fina e impertinente umedecia as folhas, como um orvalho desprovido de romantismo. O dia estava emburrado. E era uma segunda-feira. E eu seguia sorrindo.

Considerei uma dipirona sódica. “É isso, devo estar febril”, ponderei. Mas desisti de alcançar o termômetro. Não necessitava de antitérmicos. Eu estava feliz em uma segunda-feira nublada e fria. E precisava me conformar. Sem Novalgina.

Relutante, tive de reconhecer, depois de um breve checklist mental, que de motivo para tal contentamento só podia haver um. Pois é, também estou incrédulo. Sim, havia de ser ela, a menina da Augusta. Nada mais era capaz de justificar aquela feição palerma em pleno começo de dia útil. Havia de ser ela.

“Um banho deve dar conta dessa palhaçada”. Esfreguei o shampoo com vigor, como se tentasse arrancar a garota junto da caspa. Só a segunda se foi. Engoli então um café forte, que sempre dispenso porque meu paladar só tolera Starbucks, e segui para o trabalho. “Na Anchieta passa. Não há nada que não se resolva com uma boa Anchieta”, garanti, com um conhecimento de causa que eu gostaria de não possuir.

Ao chegar na minha mesa, tive de abrir o Tinder. A SP-150 acabara de falhar comigo e eu começava a me preocupar de verdade. Era chegada a hora de por à prova aqueles olhos castanhos do dia anterior. Uns azuis, alguns verdes, outros tantos castanhos: quanto mais eu deslizava aqueles rostos para a direita, menos eu queria ver pular na tela a mensagem de sucesso. Meu match já estava dado. Era isso, então. Cabia apenas me resignar. E torcer para que do outro lado ela também estivesse considerando perguntar quando nos veríamos de novo.

Acostumamos-nos ao nada sentir, não é? Adaptamo-nos às relações fordistas, àquela linha de produção na qual ninguém sente nada que não seja físico, que não envolva fluidos corporais. Tudo fica acima da epiderme, na superfície. Não há pupila dilatada nem taquicardia: só podem vir de dentro. Não há respiração entrecortada nem palavras desconexas: sexo casual não mexe com o sistema nervoso. Habituamo-nos a ser apenas um grande touchpad, no qual um novo usuário tem a chance de fazer um “hands on” toda semana.

Não vou mentir: efetivamente julguei que ela seria somente mais uma na fila do “test drive”. Que esqueceria seu nome bem antes do fim da noite, que confundiria sua história com a do crush da semana anterior, que não anotaria seu contato na agenda, mantendo a conversa no WhatsApp para sempre nomeada com uma sequência de 9 números. E, óbvio: também duvidei que ela me veria como qualquer coisa além de outra efêmera companhia de Heinekens, The Strokes e inferninhos apertados no Baixo Augusta.

Bem, eu estava redonda e felizmente enganado.

Por razões que desconhecemos e que tampouco temos feito questão de perscrutar, não paramos naquela etílica e mal planejada madrugada – na qual tudo quase deu errado para dar quase tudo certo. Já sei até seu sobrenome! E descobri que ela não suporta bacon (sim, também me indignei bastante a princípio).

Todo esse disparate de ser menos depressivo às 7h58 e manter contato com um ser humano que não aprecia bacon tem sido um baita desafio, não nego. Não porque eu faça muita questão de manter minha tradição de 26 anos de rabugice matinal. Mas porque eu já não cria que era possível atracar minha jangadinha em qualquer porto tranquilo. Tinha me rendido à (estúpida) ideia de que é preciso sempre e sempre navegar, ainda que tanta movimentação nos deixe constantemente enjoados (e como eu vivia de Dramin!).

Não sei até quando esse nó de marinheiro vai durar. Talvez chegue o dia de desatá-lo e voltar para alto-mar. Para as tempestades que, de tão rotineiras, passei a tomar por necessárias. Para um céu fechado que feche também meu semblante. Contudo, até que esse momento se apresente, porei de canto esse abatimento que outrora considerava inexorável.

Uau… E lembrar que essa desolação toda me soava tão poética e byroniana! Que eu corria a encher uma dose de whisky, sacar do bolso um tabaco e corroer paz e saúde na mesma medida. Concebia-me como um padawan de Bukowski, mas não passava de um combo de amargura e solidão galopantes.

A menina ainda está aqui. E agora não é só mais da Augusta. Não tenho ideia de por quanto tempo vou continuar me assombrando frente ao meu reflexo toda manhã. Espero que por um período suficiente. Suficiente para que ser feliz deixe de soar como uma extravagância.

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