O caçador de afeto

Faltavam poucas horas para meu voo decolar do Arturo Benítez, único aeroporto de Santiago, e eu ainda vasculhava a feira artesanal de Santa Lucía em busca de alguma alpaca em imperdível promoção. Mesmo em novembro e sob um sol de quase 30 graus, os chilenos não cediam, mantendo em 10 mil pesos essas blusas de lã. Desanimado, resolvi descansar num banco e bebericar a água sulfurosa que eles vendem por lá. Era hora de ir, e ainda sentado dei uma última espiada nos estandes em volta para garantir que comprara tudo que queria. Foi então que avistei uma pequena caixa, no chão, abarrotada de livros. Levantei-me como um relâmpago.

Se tem algo que me encanta são livros. Melhor: livros velhos. Melhor ainda: livros velhos e com dedicatória. Sebos ou feiras de livros usados são paradas obrigatórias em qualquer viagem que faço, e no Chile não foi diferente. Dias antes, eu passara boas horas enfiado numa “librería”, lutando bravamente com a minha rinite. Na ocasião, não encontrei o que buscava. Minha última esperança, portanto, estava nesse baú de madeira. Era a derradeira chance de achar um exemplar de Pablo Neruda.

Apesar de já ter lido diversos sonetos e poemas soltos, jamais tive em mãos um livro desse Nobel de Literatura. E ter visitado a casa dele em Isla Negra só me rendeu ainda mais senso de urgência em devorar uma obra completa. Qual não foi minha alegria ao puxar, então, um volume chamado “Poesía de Pablo Neruda”, edição de 1997! Assoprei o pó, contive um espirro e folheei as primeiras páginas em busca do preço: mil pesos. Cerca de 5 reais. Era meu.

Na mesma folha que ostentava o valor, escrito à lápis, havia uma dedicatória – esta, à caneta: “Natalia, Para una pequeña amiguita que esta recien empezando a vivir la vida. Feliz cumpleaños. Miguel. Nov. 1997”. Entreguei radiante o dinheiro ao vendedor e voltei ao mesmo banco em que há pouco estivera cabisbaixo. Meu primeiro livro comprado em outro país que trazia dedicatória! Bom, talvez seja apropriado explicar esse meu fetiche antes de prosseguir.

Livros novos são apenas papel impresso em larga escala. Livros velhos têm trajetória, marcas, manchas, cheiros. Livros velhos e com dedicatórias têm tudo isso e um quê a mais: têm histórias. Guardam um instante de carinho entre duas pessoas, representam uma relação entre amigos, amantes, pais, filhos, irmãos. É o retrato de um momento de afeto, um recorte de ternura, de apego, de amizade. Dedicatórias dão vida a um punhado de folhas reunidas por uma brochura.

Eis aí, por conseguinte, a beleza da aparente doidice que é ser alucinado por livros assinados: que histórias escondem essas palavras na folha de rosto? Por que diabos Natalia se livraria de um presente de Miguel? O que ele teria feito para ser alvo de tamanha desconsideração? Qual o parentesco, se há, entre os dois? Terá Natalia lido até o final? Terá gostado? Terá dedicado a um ou outro namorado algum dos versos de Neruda? Divagando em questões para as quais jamais terei resposta, subitamente me dei conta de que precisava ir. Estava atrasado. Seguiria com minhas reflexões no avião.

Agora, já em terras tupiniquins, escrevo este relato cercado de livros que também carregam curiosos escritos, sejam mensagens de apreço ou simples rubricas. Uma edição de “Os Três Mosqueteiros”, de 1973, está grafada apenas com “Neusa Murari, Set. 1975”. Não faço a mais pálida ideia de quem seja Neusa, mas gosto de me perguntar se ela ainda está viva, se comprou o livro para si ou se ganhou de outrem – que, minimalista, teria apenas redigido o nome da presenteada sem nada mais dizer.

Em outra publicação, “Eu, Claudius, Imperador”, de 1983, encontra-se o seguinte: “Mara Lúcia Alves Lima, 14/10/83 D.C.”. Gosto particularmente de como ela deixa claro que comprou o livro depois de Cristo. Obrigado, Mara! Já estava aqui imaginando em que sebo da Galileia você o teria adquirido. Mas o que eu mais gosto mesmo é de um exemplar de 1975 de “Arquipélago Gulag”, que traz: “Roberto, com carinho, Malú. Set/1984”. Palavras de quando o casamento ainda ia bem. Malú engravidaria de Roberto 6 anos depois, dando à luz este que vos escreve.

A próxima leitura da lista é aquela que Natalia achou por bem dar embora 19 anos atrás. E enquanto descubro de que falam os versos dos quais ela resolveu se desfazer, sigo buscando fragmentos de alegria. Sigo perseguindo flashes de vidas que se entrelaçaram por meio de um livro – outrora um objeto inanimado que de repente ganha fôlego, que escapa à banalidade ao ser preenchido com amor.

Existem por aí outros 11.999 exemplares idênticos a esse que adquiri no Chile. É verdade. Mas só este aqui foi comprado por Miguel e recebido com um sorriso (dissimulado ou genuíno) de uma então criança que recien empezava a vivir la vida. Feliz cumpleaños, Natalia.

Jpeg

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