A comichão da pré-independência

Há quase uma década, eu entregava minha primeira redação no curso de Jornalismo. Com recém-completados 18 anos, é verdade que eu alimentava ainda muitas ilusões, sendo a mais grave – e hoje risível – delas a de que era possível ganhar um bom dinheiro com o diploma de jornalista. De toda forma, já era latente uma pitada de realismo (ou pessimismo?), aliada a um bom humor do qual sinto falta. Fiquei mais amargo com o tempo. Transcrição abaixo.

Na mais profunda das minhas reflexões acerca da minha geração, constatei um fato nada surpreendente, e muito menos novo: a incessante luta do jovem para parecer mais velho, quando deveria ser o contrário. Levando em consideração que eu faço parte desse grupo de alienados, suponho poder relatar aqui minhas próprias peripécias em busca dos primeiros fiapos de barba.

Minha jornada começou há alguns anos, quando eu acabara de notar que o meu ensino médio e o jurássico “ginásio” do meu pai eram a mesma coisa. Sacrificando meu paladar, meu primeiro passo foi descobrir o “prazer” de tomar uma cerveja acompanhada de qualquer petisco. Acreditem: os amendoins estavam ótimos, apesar de fazer pouco jus à sua classe alimentícia de “tira-gosto”. Desde então, passei a ser menos criterioso com os líquidos, o que não vem a ser exatamente uma notícia animadora.

Lamentava, diariamente, não conseguir ter aquilo que as meninas rezavam para evitar e nós lutávamos para conseguir: qualquer vestígio de pelo facial. Só fui atendido em minhas súplicas aos 14 anos, e minha alegria ao comprar a primeira gilete era contagiante. Ainda assim, invejava alguns colegas que, na mesma idade, reclamavam da barba cerrada e dos pelos da axila, lembrando que, por uma questão histórica, homem nenhum tem axila, mas sovaco.

Acima dos atributos físicos, talvez o mais importante fosse a atitude. Sempre foi muito trabalhoso conversar com as garotas, pois é preciso falar tudo aquilo que você não é e esconder tudo aquilo que faz. Nunca acreditei muito na demagogia da minha mãe, que dizia que as mulheres amadurecem mais rápido. Para mim, era apenas charme, uma forma de se sentir superior aos moleques suados que se atracavam e jogavam futebol no intervalo.

Impacientes, esperamos pela tão aclamada maioridade, que, no fim das contas, servirá mais para nos colocar em problemas do que qualquer outra coisa. Parece uma utopia. Sempre pensei que aos 18 anos teria carro, dinheiro, mulher e não precisaria dar satisfação de nada. Ledo engano. No que eu considero o auge dos últimos três meses como “maior de idade”, o máximo que consegui foi entrar em um boteco cujo segurança me barrava todo mês.

Dentre todas as pessoas para as quais eu peço conselhos, meu pai é o que mais consegue transformar tudo em catástrofe. Segundo ele, eu “sou feliz e não sei”, “vou sentir saudade da escola” e ainda chegará o dia em que tomarei “a mais insensata e trágica das decisões”, a qual, porém, já consta do meu “inexorável destino”: casar e constituir família. Sem me atentar muito para as conspirações que envolvem meu “futuro de suor e desalentos”, acabei concluindo que maioridade, infelizmente, não é sinônimo de maturidade. E vice-versa.

Certamente, não vou consagrar o discurso retórico do meu pai, visto que seria hipócrita se o fizesse. Trata-se de uma espécie de comichão, que só cessará no dia em que eu alcançar meus objetivos ou quebrar a cara em busca deles. E, até esse dia chegar, que meu cavanhaque por fazer os convença de que eu estarei pronto.

Escrito em 2008. Para ver mais textos produzidos antes da criação deste blog, use a tag “arquivo”.

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