Do outro lado

Back to black, then. Quem diria que o maior cético que você respeita cogitaria começar a crer em destino, sincronicidade, planos divinos, dívidas, enfim, com o além? Talvez eu possa ainda me justificar dizendo que nada mais presencio do que a terceira lei de Newton em curso. É uma saída, não? E manteria semi-intacto meu orgulho ateu. Até porque, ele é o único que me resta agora.

Escrever traz alguma paz. E o mais importante: evita rompantes de otimismo e dramatismo (esses últimos, sim, aos quais eu já sou tão inclinado). Coloca ideias no lugar e previne impulsos incentivados por um coração novamente quebrado. Só não tem ainda propriedades curativas, mas serve bem de analgésico enquanto o tempo não me provém a cura.

A vida tem um humor de gosto bem duvidoso. E leva mais tempo do que deveria para contar suas piadas sem graça. Quando eu já pensava ter pago o suficiente, chega uma fatura de surpresa. E tenho de quitá-la, não tem jeito. Não dá para pagar só o mínimo, como no cartão. Só resta saber se tenho fundos (emocionais) para tanto.

Estar do lado de cá é estranho. A montanha-russa é mais intensa. A raiva dá lugar à saudade, que cede espaço à decepção, que abre alas para o perdão, que deixa entrar a mágoa. Tudo isso num espaço de quê? Dez minutos? Não acredito ter mais idade para esse Hopi Hari macabro.

Estar do lado de cá é diferente do que eu imaginava. É estar em cima do muro, sim. Tem gente que brinca com a aflição alheia? Claro! Mas se não estamos falando de um sociopata, estar do lado de cá é, sim, dúvida. É medo. É insegurança. Estar do lado de lá, contudo, sempre parece ser solidez. Certeza. Decisão. Mas aí é que vem a piada mórbida: eu estive do lado de lá. E fiz o que fiz mesmo depois de ganhar uma segunda chance.

É, eu sei, não meça ninguém com sua própria régua. Mas é inevitável temer que quem está do lado de lá agora seja tão iludido e apaixonado quanto eu já fui. Se tem uma coisa boa que os anos me deram foram pulgas. Um milhão delas. E todas cabem atrás da minha orelha. Confiar em alguém é confiar em si mesmo, é confiar nas escolhas que você faz. E eu não sei ando muito confiante no Thyago.

De uma coisa, ao menos, estou certo: se já perdi a paz, no mínimo o peso eu hei de manter. Nada mais de súbitos regimes radicais. Queria ter a outra variante da depressão, aquela que te faz comer em dobro em vez de cerrar a boca. Meu metabolismo velocista não entende abruptos cortes no cardápio. Quem tem dentro de si um Usain Bolt comandando a queima de calorias tem que ficar ligeiro.

Por fim, não vou negar que estou considerando cometer o mesmo (possível) erro que cometeram comigo anos atrás. Ando pautado por uma forma torpe de carpe diem ultimamente. Me valho do mais clichê dos ditos populares, que é aquele sobre preferir me arrepender de algo que fiz. O “e se” sempre me corroeu mais intensamente do que a dor de descobrir que eu estava errado, afinal. Não sei lidar com chances perdidas de felicidade, mesmo que elas se provem um tiro no pé lá na frente.

É, a vida tem um humor de gosto bem duvidoso. Mas serei eu a rir por último desta vez.

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