Do outro lado

Back to black, then. Quem diria que o maior cético que você respeita cogitaria começar a crer em destino, sincronicidade, planos divinos, dívidas, enfim, com o além? Talvez eu possa ainda me justificar dizendo que nada mais presencio do que a terceira lei de Newton em curso. É uma saída, não? E manteria semi-intacto meu orgulho ateu. Até porque, ele é o único que me resta agora.

Escrever traz alguma paz. E o mais importante: evita rompantes de otimismo e dramatismo (esses últimos, sim, aos quais eu já sou tão inclinado). Coloca ideias no lugar e previne impulsos incentivados por um coração novamente quebrado. Só não tem ainda propriedades curativas, mas serve bem de analgésico enquanto o tempo não me provém a cura.

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Sangue frio

Dentro mora algo, peçonha, que me muda e me mata. Não sou eu, mas é meu. Criei, criou raízes, criados juntos.

Rasteja, puxa, segura, atormenta. Eclode e me faz bicho, ogro. Com fome. De dor. Me perco e perco amados. Naja, serpente, me deixa (ser gente).

Já não posso me desculpar com quem morde(mos). “Ora, se é sua, por que não a doma?”. Ora, dama, porque eu é que sou dela.

Verme, rasteja, vá, longe de mim. Já é tempo. Nada mais me pode tirar.

Antídoto. Que há de cura fora a morte dupla? Inocula ou me corta, que já não tolero dividir cama com sangue frio.

Já não tolero a mim mesmo.

A comichão da pré-independência

Há quase uma década, eu entregava minha primeira redação no curso de Jornalismo. Com recém-completados 18 anos, é verdade que eu alimentava ainda muitas ilusões, sendo a mais grave – e hoje risível – delas a de que era possível ganhar um bom dinheiro com o diploma de jornalista. De toda forma, já era latente uma pitada de realismo (ou pessimismo?), aliada a um bom humor do qual sinto falta. Fiquei mais amargo com o tempo. Transcrição abaixo.

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O caçador de afeto

Faltavam poucas horas para meu voo decolar do Arturo Benítez, único aeroporto de Santiago, e eu ainda vasculhava a feira artesanal de Santa Lucía em busca de alguma alpaca em imperdível promoção. Mesmo em novembro e sob um sol de quase 30 graus, os chilenos não cediam, mantendo em 10 mil pesos essas blusas de lã. Desanimado, resolvi descansar num banco e bebericar a água sulfurosa que eles vendem por lá. Era hora de ir, e ainda sentado dei uma última espiada nos estandes em volta para garantir que comprara tudo que queria. Foi então que avistei uma pequena caixa, no chão, abarrotada de livros. Levantei-me como um relâmpago.

Se tem algo que me encanta são livros. Melhor: livros velhos. Melhor ainda: livros velhos e com dedicatória. Sebos ou feiras de livros usados são paradas obrigatórias em qualquer viagem que faço, e no Chile não foi diferente. Dias antes, eu passara boas horas enfiado numa “librería”, lutando bravamente com a minha rinite. Na ocasião, não encontrei o que buscava. Minha última esperança, portanto, estava nesse baú de madeira. Era a derradeira chance de achar um exemplar de Pablo Neruda.

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Primavera concretada

Já são quase 7 anos de Brigadeiro Faria Lima. Ao menos 1.345 dias do mesmo trajeto entre o metrô e o edifício onde vendo 160 horas do meu mês por uma cifra que nunca dura até o fim dele. E só hoje é que me dei conta de um discreto espetáculo encravado já no término desse fastidioso percurso de 350 metros.

Desconheço a espécie da árvore e de suas flores. Tampouco compreendo de onde a flora paulistana extrai forças para vigorar em meio a tanto dióxido de carbono, urina humana e bitucas depositadas às suas raízes. Mas sei o seguinte: sua valentia em florescer, tão espremida entre concreto e aço, me fez estancar no meio da caminhada e fazer o registro abaixo:

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Depois da Augusta

Despertei com meu habitual e cronometrado encerramento das vias nasais. “Tenho de me livrar logo disso”, pensei, enquanto tateava o colchão em busca do frasco que me concederia mais algumas horas de sono. Uns dormem com o celular sob o travesseiro. Eu, com cloridrato de nafazolina.

Cambaleei até o banheiro. Pela claridade que invadia o quarto, soube que o dia já amanhecera. Torci para que o relógio ainda marcasse 6 e alguma coisa, mas sem de fato conferir meu prognóstico. É sempre melhor me deitar novamente sem saber que já são 7h58 – e que dali 2 minutos vou estremecer com aquele toque polifônico que passei a detestar mais que bife de fígado.

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