Depois da Roosevelt

Confesso: nos dias depois da Roosevelt, fui tomado de assalto por um sentimento que eu há muito já havia expurgado. Exaustiva e involuntariamente, me flagrei fazendo os seguintes questionamentos: “Isso é tudo? Não vai esgotar as possibilidades? Não vai perseverar? Enfim a ‘chance’ se apresenta e você vai deixá-la escapar como areia pelos dedos? Te vejo tentando repetidas vezes terminar a droga de um jogo, mas ao primeiro revés numa empreitada de real importância você atira longe o controle?”.

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Amém

– Ei, grande! Tu aí! Psiu!

Eu caminhava apressado (como sempre) pelo Largo da Batata, era uma terça-feira fria, feia e atrasada, mas parei e me virei.

– Me diga aí uma passagem da Bíblia!

Sentado sobre um colchonete, pertences por todo lado, ele abriu um sorriso amarelo-avermelhado. Um filete de sangue escorria pelos seus dentes inferiores, e eu tive um calafrio.

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Anos incr… incrivelmente difíceis

No mesmo espírito do velho dito popular do ovo e da galinha, cabe aqui perguntar sobre os últimos anos de Brasil: o que veio antes? A crise política ou a econômica? É difícil precisar, ainda mais quando não se é especialista em nenhum dos dois assuntos e quando vemos entendedores entendendo muito pouco do que está acontecendo. Mas vamos aos fatos que conhecemos: a economia começou a naufragar e o governo, de mãos atadas, pouco tem feito para evitar que esse navio afunde de vez – pois que o choque contra o iceberg já se deu, sendo contraproducente lamentar agora pelos danos já causados.

Desemprego, inflação, consumo e investimentos em queda livre e uma dívida pública galopante, impulsionada por um Estado que gasta mais do que arrecada. Junte-se a isso a intrigante solução encontrada por este último: joga mais impostos nas costas do povo, estrangulando o poder de compra e assim alimentando um círculo vicioso de degeneração da economia. E como sair desse buraco nos próximos anos, que parece apenas ficar mais e mais fundo? Reformas econômicas.

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Cabo de guerra

Dia desses me lembrei sem motivo de uma historinha boba, porém bastante ilustrativa de como o machismo é onipresente e machuca também os homens.

Quando eu contava uns 10 anos, se sucedeu a seguinte situação: no aquecimento para um treino de taekwondo (arte que eu largaria pouco tempo depois), o professor resolveu inovar. A brincadeira era fazer testes de força entre meninos e meninas, que incluíam cabo de guerra e imobilização.

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Que alegria senti

Depois do sombrio “Que medo senti”, pensei: por que não revelar um lado um pouco menos soturno daquele mesmo Thyago de 10 anos?  Falando como quem já se achava adulto o bastante para escrever sobre o passado, resolvi relatar um caso curioso que me acometera 5 anos antes. Ou seja, quando eu somava apenas 5 primaveras de vida. (Nota mental: sorte a minha – e de vocês – eu ter deixado toda essa prepotência lá na infância. Do jeito que a coisa ia, não duvido que eu me proporia a lançar uma autobiografia aos 15).

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MMORPG: Mate goblins com moderação

Logo após me formar em Jornalismo, em 2011, achei que seria uma boa ideia engatar uma pós-graduação sem nenhum tempo de descanso. Foi o que fiz. Três meses depois de entregar meu TCC, estava de volta à sala de aula. Como eu deveria ter previsto, a experiência não foi das melhores e acabei trancando o curso.

Mas nem tudo é perda de tempo. Abaixo deixo um artigo que escrevi para uma das disciplinas, que levava o pomposo nome de “Interatividade, Tecnologia e Ubiquidade”.

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A voz de lá

– E você acha que a comunidade vai melhorar ou piorar nos próximos 2 anos?
– Melhorar que jeito, meu filho? Este buraco aqui foi esquecido até por Deus…

27 de fevereiro, Carapicuíba, São Paulo

O dia começou cedo, e a noite anterior acabara tarde. Ainda não eram 6 horas quando aumentaram absurdamente o volume de “Viva La Vida” – e isso talvez explique por que passei a odiar Coldplay desde então. Com uma animação que não é característica de seres humanos antes das 10h, dois rapazes batiam palmas e bradavam palavras de encorajamento para arrancar 50 jovens mal humorados de seus sacos de dormir.

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Insônia

Vez ou outra que não consigo dormir, começo a rezar o Pai Nosso. Repetidamente. Fato curioso vindo de um ateu, eu sei. Mas me acalma de alguma forma. Vai ver é pela simples repetição de palavras, que culmina em exaustão mental. Vai ver é pela criação protestante, os longos anos de cultos dominicais. Pois hoje é domingo, mas a presença que tenho aqui comigo não é das mais divinas.

Acendo um cigarro na janela. Vejo a chuva cair com violência e quebrar ramos das plantas que ela deveria nutrir. Orações decoradas não vão me ajudar hoje. A noite será insone. Confesso que nunca entendi a expressão “em claro”. Se tem algo que me falta junto do sono é sempre a clareza. E é por isso que a insônia me irrita tanto: porque não fode nem sai de cima. Não deixa descansar nem refletir. Horas de vida desperdiçadas.

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