A tecelã de sorrisos

Ela se aproximou sem muita cautela. Trombou em uma cadeira no caminho, pediu desculpas ao casal, puxou o banco à minha direita – que arranhou o piso com um som aflitivo – e teve dificuldade para se sentar. A banqueta alta a obrigou a arrastar uma parte da bunda primeiro para depois puxar a outra banda, como quem sobe a uma mureta. O cheiro de Marlboro vermelho recém consumido me incomodou, e eu comecei a pensar no quão hipócrita um fumante pode ser.

Continuar lendo

A foto

Vi a foto de vocês. Claro que vi. E você parece feliz. O sorriso está largo, gostoso demais para ser posado. Você está radiante.

Sabe, nesses últimos anos já assisti a alguns engates como o seu. Meninas que me deram uma chance, logo desperdiçada, e que então acabaram por encontrar amor de verdade em outros braços. Mas foi sempre com indiferença e até certa frieza que as vi realizadas. Pelo menos até agora.

Continuar lendo

À tua partida

Todo meu sentimento cruzará mares. Leva contigo minha estima enquanto estas palavras permanecem duras em folhas vindas d’outro mundo. Leva contigo minha estima, irmão. Leva contigo meu sentimento. Se confiei em tua mão, confia em meu coração.

4:16 A.M. – 16/04/2015

Amizade

– Escuta, escuta! Eu a encontrei!
– Quem?
– Quem não! O quê!
– O quê?
– Ela!
– Ela quem?
– Quem não! O quê!
– Ela o quê?
– A felicidade!
– Mas que boa nova! Fico contente por você!
– Por quê?
– Porque a encontrou, ora!
– Exato. Eu a encontrei, mas não a tenho.
– Pois vá pegá-la!
– É arisca…
– Hm… precisa então de algo que a atraia.
– É o que tenho tentado. E quando eu conseguir apanhá-la, a dividirei com você!
– Agradeço, mas não será preciso. Quando tiver sua felicidade, naturalmente terei a minha.

O menino do autorama

Todo mês passo à rua Tiradentes para ir à minha dermatologista. Não há nada que pareça especial nessa rua. Um salão de beleza, um boteco que serve PFs e doses de cachaça generosos, um autorama abandonado.

Na verdade, trata-se da garagem de um sobrado, onde já funcionou um autorama. O ano era 1998, o lugar era colorido, metido a futurista, e tinha máquinas de refrigerante e salgadinhos. É óbvio que eu obrigava meu pai a me levar lá toda semana.

Continuar lendo

Vinde!

Torpor, andamento, reflexão, julgamento, júbilo instado sem lógica, antes preparo de algo maior por vir.

São irmãos da noite, do amanhecer, da aurora inflexível e ardilosa que trará a forma perfeita, mas inconstante.

Alegria! São códigos, signos, sinais, formas. Minhas arestas. Geometria imperfeita, e por isso mesmo digna de minha formação.

Três, ímpar, inconformados e móveis. Vinde, jograis de virtude! Logo seremos tantos que não caberemos em mim, mas em nós. Seremos todos e únicos, canteiros da tempestade.

Somos nossos e íntegros. Vinde!

Sobre a amizade

É abraço e fomento. Base e pilar. Puro entendimento. É construir sem estar só. Vigiar, desejar uma vida melhor. É soma, cresce, se ergue. Multiplicação.

Querer bem sem estar bem, ouvir quando se é surdo. Dar a mão quando esta está ferida. Mesmo na dor, ser alento. Mesmo na fome, dar de comer.

São dos raros que faço meu cartel. Não preciso de muitos, só preciso dos fortes. Um exército de poucos, mas vorazes. Nosso escudo é antes de fé do que de aço.

Continuar lendo