Maternidade

Por Daniele Costa Russo

Eu disse a uma amiga que não lembro como é ser adulta sem ser mãe, pois me tornei mãe muito jovem.

Basicamente, não tive um único ano de adulta a partir dos 20, quando fiquei grávida, que eu não me sentisse inundada de amor. Entorpecida de amor. Boca, membros, olhos formigando de amor.

Mas essa certeza e sensação são uma complexidade.

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A foto

Vi a foto de vocês. Claro que vi. E você parece feliz. O sorriso está largo, gostoso demais para ser posado. Você está radiante.

Sabe, nesses últimos anos já assisti a alguns engates como o seu. Meninas que me deram uma chance, logo desperdiçada, e que então acabaram por encontrar amor de verdade em outros braços. Mas foi sempre com indiferença e até certa frieza que as vi realizadas. Pelo menos até agora.

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Desencanto

Eu a vi passar por mim, mas ela não me notou. Seu olhar ia fixo, absorto, olhar lânguido, esbranquiçado. O andar leve e ligeiro era como que automático, levando aquelas pernas de meia-fina para longe, para casa.

Eu a vi passar por mim. E estanquei. Não porque esperasse que ela se virasse e qualquer cena utópica de reencontro tomasse vida dali. Mas porque ela se desconstruía, se dissolvia a cada passo. O som oco do salto zunia na minha cabeça, como marteladas a botar abaixo o altíssimo pedestal que levei anos para erigir, que pedra sobre pedra construí com tanto tormento e esmero.

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O striptease

– Gostaria de vê-la nua agora, por obséquio.

– Sim, senhor – ela respondeu divertida, apoiando a taça no criado mudo.

Ela ficava linda assim, com uma camiseta puída do Mickey e uma calça furada dos tempos de colégio, que não trocava por nenhum pijama de seda deste mundo.

– Taram taram, taram… taram taram taram taram taraaam… – comecei a entoar enquanto ela fazia graça no meio da minúscula sala.

– Nunca entendi por que a música de um desenho infantil virou trilha de striptease – observou, ao tirar a camiseta.

Os seios pequenos não precisavam de sutiã. Ela vivia dizendo que colocaria silicone e eu vivia ameaçando que terminaria tudo se ela o fizesse. Estava dando certo até então.

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Transitório

Àquelas depois de ti.

Aproveita enquanto sou teu. Faz de mim o que quiseres, me toca, beija, ama, deseja. Meu corpo é teu templo e nele regem tuas leis. Toma minha mão na tua e desliza pela tua pele, me ensina a te explorar. Pede, manda, grita, implora. Menina, queres saber? Pouco importa. Diz e eu o farei.

Aproveita enquanto sou teu. Mas deixa lá de pressa que ela tem rinha com a perfeição. O tempo chega quando tem de ser, e nenhum de nós pode mudar seu curso. Então deita tranquila, te aninha no meu peito, me abraça forte e sem jeito, desfruta sem relógios. Eles não podem mesmo te dizer o que queres saber.

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Mais um breve diálogo

– Tu escreves como se tua história a alguém interessasse, até com certa soberba. Achas mesmo que juntar algumas palavras bonitas faz de ti qualquer grande coisa, que te confere importância?

– É a sina de todo aquele que despeja sobre o papel suas mazelas. Tendem a amenizar as críticas quando partimos, quando sob muita terra já vermes devoram nossa carne. Aí, de repente, não mais que de repente, somos alguém, já perdemos a aura pretensiosa e arrogante à qual tu te referes. Não te soa por demais injusto? Quiçá até triste?

– Sabes bem como me desarmar, como sempre. Tens razão, não me parece correta tal postura. Ou tu és admirado em vida e também depois dela ou não deverias sê-lo em momento algum para começar. Pensas que serás alvo desse nefasto julgamento?

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Cidade do amor

Que sombra é esta que te cai na face, acabas de ter-me e já te colocas nublado, É nada, deixa estar, exaurido somente, Elogias-me, Também, alcança-me o charuto, Cá está, Agora quem retorce o rosto és tu, Bem sabes que não me apetece o odor de tua morte lenta, Apenas de meu suor a pingar-te na testa, esse sim. A bela abriu sorriso largo, se pôs de pé e passos leves a levaram à sacada. Nua para toda Paris por ti apaixonar-se, É a cidade do amor, o qual, aliás, imagino se por mim ainda nutres, Disparate é esse meu bem, Sê franco, há muito teu coração só pulsa por fumo, uísque e meretrizes, Ofendes-me, Culpa não é minha que escolhas as mais feias, Basta. Levantou-se e foi ter dose de qualquer 12 anos.

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