Nua arte

No meu último dia de Argentina, resolvi fazer compras. Mas nada de alfajores. Fui direto à livraria – a única da pequenina El Calafate. Charmosa, miúda, com ares de estar funcionando há pelo menos 60 anos e com uma senhora simpaticíssima à porta: era um convite para deixar todos os meus pesos lá. Meu objetivo era comprar livros para os amigos e algo para mim, e todos os itens tinham que ser genuinamente argentinos. Nada de Hemingway em espanhol.

Para os meninos, Jorge Luis Borges e Júlio Cortázar. Para mim, algo mais picante, que é exatamente o tema deste texto. Como de costume, fui direto à seção de HQs. Não procurava nada específico, então fui mexendo em tudo, fuçando. Eis que me deparo com uma prateleira, digamos, “para maiores”: graphic novels que traziam belas mulheres nuas na capa. Nada de putaria, mas sensualidade, erotismo. Achei incrível encontrar esse material. E explico: nada tem a ver com meus hormônios.

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A incômoda arte de Pawel Kuczynski

O nome pode ser inédito pra você, mas tenho certeza de que algum dos trabalhos deste polonês não o é. Pawel Kuczynski tem 37 anos e já dedica 10 deles à arte da mais instigante e ácida. Seus desenhos, inflamados de ironia, sarcasmo e crítica social, são um tapa na cara, de mão aberta, de cada calejado colhedor de arroz que ele pincela.

Fora o talento de Pawel, fico tanto mais desconcertado com o fato de ele ser pouco conhecido. Quer dizer, pelo menos por estas bandas (vai que ele é uma celebridade no leste europeu e eu não sei?). A maior parte do material que achei sobre ele foi em pequenos blogs (como este). Exceto por um blogueiro de VEJA, não encontrei qualquer outra menção de grandes veículos. O que, a bem da verdade, não é tão preocupante em tempos de web 2.0, né? Quando os (autoproclamados) todo-poderosos escolhem por ignorar algo ou alguém, o Google salva o dia mais uma vez.

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Hemos perdido aún este crepúsculo

Poema 10 do livro “Vinte poemas de amor e uma canção desesperada” de Pablo Neruda. Decidi colocar o poema da forma original escrita por Neruda (em espanhol, claro) e a tradução para o português. A forma original é a original… Não tem jeito, qualquer tradução modifica a musicalidade e a simetria da linguagem do poeta. Tradução é interpretação, e interpretação é sempre criativa. Por isso, coloco o original e, em seguida, a tradução de Domingos Carvalho da Silva:

Hemos perdido aún este crepúsculo.
Nadie nos vió esta tarde con las manos unidas
mientras la noche azul caía sobre el mundo.

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O velho e o mar

Provavelmente a obra mais aclamada do Sr. Ernest Hemingway, a primeira que li, e que logo me espantou tamanha sua simplicidade e elegância. Uma verdadeira obra de arte que rendeu ao autor o prêmio Nobel da literatura no ano de 1954.

Escrita em Cuba em 1951, Hemingway conta a história do velho pescador Santiago, que vive uma péssima fase em seu ofício, não consegue pescar nenhum peixe há quase três meses.

Na manhã do 85º dia de sua maré de azar, Santiago entra sozinho em sua pequena canoa e segue em direção ao oceano mais um vez. Um enorme peixe morde seu anzol e o velho trava uma intensa batalha contra a natureza e contra seus próprios limites.

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Frida

Do México para o mundo. A mulher que deu uns amassos no Trótski, que ostentava – com orgulho – monocelhas, que sobreviveu a uma barra de ferro atravessada pelo corpo. Arrisco-me a falar um pouco sobre Frida Kahlo, por quem me apaixonei gravemente durante a leitura de sua biografia, escrita por Hayden Herrera. E, claro, sobre o livro que me abriu os olhos para essa guerreira latina.

O livro “Frida – A Biografia” me foi dado no dia em que apresentei o meu TCC. Eu nunca fui um entusiasta da pintora, nem ao menos sabia muito mais do que aprendi no colégio sobre ela, e fiquei muito curioso para entender por que tinha recebido tal presente. Fui à luta e descobri uma artista de caráter, carisma e talento incomparáveis. Pena que tenha partido tão cedo.

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Mútuo – Parte II

Ele chega em sua casa e senta em seu sofá após a noite extenuante. Seus ouvidos estão zunindo, seu coração ainda está acelerado. Sempre tem dificuldade de dormir após uma apresentação. Fica inquieto, agitado, mil coisas passam pela sua cabeça, apesar de sentir um extremo cansaço.

Olha para a sua coleção de DVDs e escolhe um, escolhe um especial para esta noite: uma apresentação de Horace Silver e seu quinteto em um festival de jazz de 1976. Um achado. Ah, como ele gosta desse som. Como gosta do Horace. Já coloca a sua favorita. “Song for my father” explode em seus ouvidos e ele decide se presentear pela boa atuação da noite. Uma dose de seu doze anos favorito. Sua velha tradição. Já não bebe frequentemente por problemas de saúde, bebe apenas em ocasiões especiais, e essa noite é uma delas. É uma noite realmente especial para ele.

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Mútuo – Parte I

Em um lampejo, ele percebe tudo. No meio daquele refrão, todos olham e escutam. Ele consegue. Cumpre seu objetivo com maestria. Sente e é sentido. Se faz único por intermédio de suas mãos e dedos, impregna o ouvido da plateia por um momento que seja.

A marca do seu ser humano está lá, infiltrada, dentro da mente de cada um. E eles percebem, sabem disso, e o mais incrível: eles adoram. Se deleitam enquanto interpretam tudo aquilo. Agora ele não pode mais parar. Criou uma imensa expectativa naquela sala. O turbilhão de ideias que passam em sua mente não cessa, ele sua. Só precisa organizá-las com calma. E o faz.

Agora, durante os aplausos, tudo faz sentido. Tudo ficou claro. Ele sabe novamente quem é. E sabe por que fez o que fez. Acontece o inabalável entendimento artístico entre os que estavam presentes naquela sala. O ser único musical dentro deles, músico e plateia, emerge. Assim, vão embora para as suas residências, os dois, juntos.