O caçador de afeto

Faltavam poucas horas para meu voo decolar do Arturo Benítez, único aeroporto de Santiago, e eu ainda vasculhava a feira artesanal de Santa Lucía em busca de alguma alpaca em imperdível promoção. Mesmo em novembro e sob um sol de quase 30 graus, os chilenos não cediam, mantendo em 10 mil pesos essas blusas de lã. Desanimado, resolvi descansar num banco e bebericar a água sulfurosa que eles vendem por lá. Era hora de ir, e ainda sentado dei uma última espiada nos estandes em volta para garantir que comprara tudo que queria. Foi então que avistei uma pequena caixa, no chão, abarrotada de livros. Levantei-me como um relâmpago.

Se tem algo que me encanta são livros. Melhor: livros velhos. Melhor ainda: livros velhos e com dedicatória. Sebos ou feiras de livros usados são paradas obrigatórias em qualquer viagem que faço, e no Chile não foi diferente. Dias antes, eu passara boas horas enfiado numa “librería”, lutando bravamente com a minha rinite. Na ocasião, não encontrei o que buscava. Minha última esperança, portanto, estava nesse baú de madeira. Era a derradeira chance de achar um exemplar de Pablo Neruda.

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Depois da Roosevelt

Confesso: nos dias depois da Roosevelt, fui tomado de assalto por um sentimento que eu há muito já havia expurgado. Exaustiva e involuntariamente, me flagrei fazendo os seguintes questionamentos: “Isso é tudo? Não vai esgotar as possibilidades? Não vai perseverar? Enfim a ‘chance’ se apresenta e você vai deixá-la escapar como areia pelos dedos? Te vejo tentando repetidas vezes terminar a droga de um jogo, mas ao primeiro revés numa empreitada de real importância você atira longe o controle?”.

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Cabo de guerra

Dia desses me lembrei sem motivo de uma historinha boba, porém bastante ilustrativa de como o machismo é onipresente e machuca também os homens.

Quando eu contava uns 10 anos, se sucedeu a seguinte situação: no aquecimento para um treino de taekwondo (arte que eu largaria pouco tempo depois), o professor resolveu inovar. A brincadeira era fazer testes de força entre meninos e meninas, que incluíam cabo de guerra e imobilização.

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MMORPG: Mate goblins com moderação

Logo após me formar em Jornalismo, em 2011, achei que seria uma boa ideia engatar uma pós-graduação sem nenhum tempo de descanso. Foi o que fiz. Três meses depois de entregar meu TCC, estava de volta à sala de aula. Como eu deveria ter previsto, a experiência não foi das melhores e acabei trancando o curso.

Mas nem tudo é perda de tempo. Abaixo deixo um artigo que escrevi para uma das disciplinas, que levava o pomposo nome de “Interatividade, Tecnologia e Ubiquidade”.

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Alexandre ou (A Doçura do Desatino)

– Olá, meu nome é Alexandre, como é o seu?

Eram nove horas da noite, a rua estava deserta e eu espiava a geladeira de uma banca solitária, último resquício de comércio aberto na Gentil de Moura. Não tive tempo de responder, apenas de apertar a mão amistosamente estendida, que já aguardava alguns segundos na mesma posição.

– Não quero te incomodar, mas é que eu sou portador de esquizofrenia e esqueci meu passe especial. Você não teria algum dinheiro para me emprestar, teria? A propósito, meu nome é Alexandre.

O rapaz da banca, ocupado com os últimos afazeres antes de fechá-la, passou a prestar mais atenção no homem. Não sei se pela menção à doença, pelo português irretocável ou pelos 2 metros que ele devia ter. Talvez tudo isso. Mas apenas eu podia fitar aqueles olhos azulíssimos, que não piscavam.

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