Maternidade

Por Daniele Costa Russo

Eu disse a uma amiga que não lembro como é ser adulta sem ser mãe, pois me tornei mãe muito jovem.

Basicamente, não tive um único ano de adulta a partir dos 20, quando fiquei grávida, que eu não me sentisse inundada de amor. Entorpecida de amor. Boca, membros, olhos formigando de amor.

Mas essa certeza e sensação são uma complexidade.

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O trânsito parou

Por Leila Leal Lima

O trânsito parou. Eu também parei. O pensamento continuou em qualquer detalhe da última reunião antes de deixar o escritório. Quatro crianças se aproximavam dos carros em fila. Deviam ter entre três e oito anos. Irmãos, talvez. Mas e os pais? Onde estão? Não vejo pais. Só as crianças: quatro. Sabe, não gosto de dar dinheiro no farol. Dinheiro, não. Dou qualquer outra coisa que estiver no carro, mas dinheiro não gosto, não. Acontece que criança mexe com a gente, né? Um dos menores encosta no meu carro. Chuto que ele tem quatro anos. Devo ter alguma coisa na bolsa, deixa eu pegar a bolsa… só mais um pouco que ela está embaixo do banco… Como me irrita ter que esconder a bolsa embaixo do banco. Mas estou em São Paulo: tenho que esconder a bolsa, fechar o vidro do carro e sair mais cedo do trabalho às sextas por causa do rodízio. “Tia, você tem água?”. Eu não tinha alcançado a bolsa ainda. Ele queria água. Eu tinha água. Caramba, eu nunca fiquei tão contente em ter uma garrafa d’água dentro do meu carro! Pelos olhos dele, ele também não. “Obrigado, tia”. Pausa. “Seu carro está machucado, você viu?” – e apontou para a batida na minha lateral esquerda. O trânsito andou. Eu também andei.

Não, meu carro não está machucado, pequeno desconhecido. Eu que estou.

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O choro e o mar

Por Diego Guime

E se eu tivesse ido um pouco além? Talvez ninguém tivesse me impedido. Talvez ninguém tivesse nem visto. Iluminado pelo contorno das luzes do calçadão ao fundo e pelas luzes distantes dos navios, meus pés tocavam a água e as ondas pareciam me puxar até que minhas pernas estavam quase que totalmente consumidas. No escuro, éramos só eu, as estrelas e o mar, junto com aquela sensação de infinito diante do universo que se abre diante de olhos úmidos, romanticamente os fazendo lacrimejar. Ali não existia mais eu. Era tudo e um todo, que se conectavam assustadoramente. Senti um vazio e uma sensação de não fazer parte daquele ambiente, como se a existência fosse um peso muito grande a se carregar. Então olhei o horizonte uma última vez e desisti. Olhei pra trás e ainda tinha espaço. Ainda havia tempo.

Volto à superfície com minhas roupas e documentos encharcados. Volto pra areia, e com ela a realidade. Volto com a certeza de que deveria ter ido um pouco mais além.

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O muro

Por Davi Sabry

Seu Zé, levante um muro aqui. Se preocupe com o tamanho não, homi, que quanto mais cedo a gente começa mais logo a gente termina. Mas faça alto, que não quero cabra espigão espichando o olho pro lado de cá. Chame também Severino pra ajudar, o de Maria, do finado Zacarias. E seu inventor, João Cabral de Melo Neto, que inventou de desencarnar antes de inventar uma história boa pra falar desse grande feito muralístico.

Do lado de cá comece logo botando a Iracema de José de Alencar. E aquele tal de Nelson, o Rodrigues, pra abrir os olhos dessa gente sobre a vida, do jeitinho que ela é. E pra não dizer que não tem mascote, chame Graciliano Ramos com a cachorra Baleia pra ficar por aqui também.

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Feijoada no Centro

Por Francisco Bezerra

Paro para comer um troço num restaurante na esquina da rua do Comércio com a São Bento. Feijoada é o do dia. Estranho, por ser quinta-feira. A promessa da cumbuca borbulhante trazida à mesa não se cumpre, é meia-boca. Vou engolindo. Parece feita com pertences do porco, de um ornitorrinco e do cozinheiro que deixou cair a carteira no caldeirão. Se achar uma medalha de Nossa Senhora de Aparecida entre um paio e uma costelinha, não será surpresa.

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Velhos Piratas

Dedico este ensaio à minha mãe, que se foi tão cedo, ao meu pai, que morreu sem me conhecer, ao meu primeiro filho, que morreu em meus braços, e ao meu segundo, que me foi negado.

Lutem, negros!

Por Fernando de Campos Iloz

Velhos piratas roubaram meu menino. Levaram-no em um navio negreiro para um lugar que não consigo ir.

Eles dizem que somos livres para vê-lo quando quisermos, mas não somos bons o suficiente para tê-lo com quem quiser.

Durante todos os segundos do dia busco emancipar minha mente quando me consumo em raiva e angústia.

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